sábado, 16 de março de 2013

Se os mortos não ressuscitam, Philip Kerr - Opinião




Sinopse:

Berlim, 1934. Os nazis garantiram a realização dos Jogos Olímpicos de 1936, mas enfrentam grande resistência estrangeira. Hitler e Avery Brundage, o presidente do Comité Olímpico dos Estados Unidos, tudo fazem para tentar encobrir o antissemitismo nazi e assim convencer a América a participar nos Jogos. Bernie Gunther, agora detetive num dos hotéis mais conceituados de Berlim, vê-se arrastado para este mundo de corrupção internacional, enredado entre as várias fações do aparelho nazi.

Havana, 1954. Fulgencio Batista, apoiado pela CIA, acabou de subir ao poder. Fidel Castro foi preso e a Máfia americana ganha poder sobre a indústria do jogo e da prostituição. Bernie, recentemente expulso de Buenos Aires, reemerge em Cuba com uma nova identidade, decidido a levar uma vida de relativa paz. No entanto, quando se depara com duas figuras do passado - um pérfido assassino dos tempos de Berlim, que pouco depois é misteriosamente assassinado, e uma antiga amante que, ao que tudo indica, poderá ser a responsável pelo crime -, percebe que não tem como lhe fugir.


Opinião:

Esta narrativa decorre em dois períodos conturbados da história recente.
Em 1934 acompanhamos Bernie Gunther enquanto ele se enreda numa trama de corrupção ao mais alto nível que poderá mostrar-se muito perigosa para a sua própria saúde... A prossecução do objectivo de realizar com êxito os Jogos Olímpicos de 1936 dá azo a que toda uma espécie de criminosos inunde Berlim e se movimente ao mais alto nível.
Bernie conhece a bela Noreen Charalambides, uma morte ocorre no Hotel Adlon. Estão lançados os dados para o início de mais uma aventura do nosso ex-polícia alemão.

Em 1954 vamos à Cuba de Fulgêncio Batista - Fidel está preso - encontrar Gunther passados 20 anos onde irá re-encontrar alguns personagens conhecidos e, claro está, meter-se em sarilhos...
Não posso revelar muito sobre esta parte da história porque ocorre no final do livro e, como tal, é decisiva para a conclusão da obra.


Com a Alemanha e, sobretudo, o nazismo como pano de fundo, é interessante conhecer até que ponto retorcido e doentio os nacionais socialistas esmagavam toda a sociedade e procuravam erigir uma nova, que fosse mais de acordo com a sua ideologia. À semelhança do que senti no livro de Roth, é, para mim, aterrador verificar a facilidade com que as massas aderem a movimentos inqualificáveis sem que lhes façam o mínimo, e devido, escrutínio. Torna-se particularmente assustador porque também nos dias que correm existe uma descrença generalizada nos governantes nacionais e no projecto europeu, há uma sensação de falta de rumo e timoneiro. Com estas condições, não poucas vezes na História, surgiram os salvadores da pátria do tipo versado neste livro.

Fazendo uma apreciação global devo dizer que gostei deste Se os mortos não ressuscitam. É uma leitura agradável embora não seja daquelas de tirar fôlego e sono. Kerr consegue pintar um quadro de época muito interessante e detalhado numa narrativa que apela à leitura e, uma vez mais, me convenceu.

Todavia... (a partir deste ponto inicia-se a pancadaria às editoras e quem não estiver pelos ajustes pode, neste ponto, sem prejuízo da opinião, livro e autor, ir regar as plantas e retirar as folhas secas)


Este livro de Philip Kerr pertence a um conjunto de livros com a mesma personagem principal. Já havia lido Projecto Janus, outro que tal, e também gostei. Em português só existem estes dois títulos, o que é uma pena, mas em inglês podem-se contar oito livros desta "série". Como um exemplo posso mencionar  "Field Grey" que é precisamente o livro que prossegue a história de Gunther a partir do ponto em que neste que vos falo ficou, embora já haja mais um após esse.
Para quem, como eu, gosta de seguir a ordem da publicação dos livros para poder acompanhar lógica e cronologicamente o trabalho de um autor, e ainda mais nestes casos em que existe um personagem comum em diversos livros, confesso que lamento imenso o critério escolhido pelas editoras quanto à sua publicação.  É que parece não existir qualquer critério.
Neste caso que vos revelo os dois livros editados em português são o QUARTO e o SEXTO. Desculpem lá... Começam a coisa a meio e e nem sequer seguem a partir daí? Esperem... A seguir publicam o terceiro, vamos ao oitavo, passamos pelo segundo e pelo sétimo, encontramos o quinto e, se calhar, terminamos no primeiro... Será isso?
Ou então nem sequer se dão ao trabalho de continuar e quando o Kerr morrer, à boa maneira portuguesa, atribuem-lhe uma menção honrosa póstuma e publicam todos os seus livros de enfiada.
Para isto, excelsos, mas valia não se darem ao trabalho.

Boas leituras...




8 comentários:

Paula disse...

Olá André, gostei da tua opinião, no entanto não é livro que vá ler por enquanto. Tenho tantos por ler que já me proibi de comprar mais livros!
Quanto às editoras, conheço algumas colecções assim. Enfim...

André Nuno disse...

Olá, Paula.
Como compreendo o que queres dizer... :)
Eu também gostaria de fazer uma coisa assim tipo Lei Seca. "Não há mais compras enquanto não ler todos os que tenho!"
Só que depois há este, aquele, o outro, aqueleoutro... E lá vem mais uma remessa.
Embora já tenhamos falado nisso no passado e eu ainda não o tenha feito, estou a encontrar cada vez mais motivos para ler em inglês... Desde a variedade, passando pelo preço e terminando na vantagem de ler originais em vez de traduções duvidosas. Por enquanto estou à espera de livros só em PT mas na minha encomenda de Abril, se a puder fazer, virá um livro em inglês. Estou destreinado e será, pelo menos de início, um pouco complicado mas penso que serei capaz de apreciar a leitura nesse idioma. Não tenho qualquer dificuldade me seguir séries anglófonas sem recurso a legendas, daí até à leitura não deverá ir um passo muito largo.
Abraço, e boas leituras!

Elphaba J. disse...

Não leio muito policiais o que não invalida que não goste, aliás, li muitos no passado por influência do meu pai porque este é o seu género favorito e mesmo a minha não resiste, embora agora vá sendo influenciada pelos meus romances históricos. Mas isto não interessa nada.
Gostei da tua opinião, atraiu-me o contexto histórico da obra e gostei ainda mais da ligação que fazes a actualidade social. É importante que alguém vá citando esta questão preocupante das adesões em massa pelo descontentamento, embora eu não perceba as mentalidades. Eu leio imensa ficção, com finais felizes, e ainda não acredito em truques de magia, mas no desespero acredito que se siga a máxima de “repetir, repetir, repetir” que torna mais fácil o acreditar.
Com tudo o que tenho para ler, esta não será certamente uma das minhas próximas leituras mas vou, definitivamente, recomenda-la aos adeptos cá da casa e assim, um dia mais tarde, virá, possivelmente, parar-me às mãos. De preferência pela ordem correcta ;)
Boas leituras.

P.S.: O meu inglês é uma treta, ainda estou a aprender por assim dizer, mas li este ano o meu 1.º título nessa língua e não foi tão difícil como pensei. Já tenho o próximo ao meu lado para ir folheando logo que tenha oportunidade.

André Nuno disse...

Elphaba,
as obras de ficção, mesmo os policiais, têm o dom de me fazer recordar o passado e reflectir sobre o presente. Vivemos dias de, mais do que mediatismo, imediatismo. O que se passou na semana passada não existe nesta. Mesmo nas notícias da actualidade só obtêm relevo aquelas que produzem um "soundbyte". E isto preocupa-me bastante porque não revejo no "grosso" da sociedade capacidade para dizer que não ao prato que lhe ponham à frente, seja ele qual for.
Quanto ao inglês acho que será uma aposta que farei e penso que não me sairei mal. Se conseguir só vejo lados positivo e deixarei para consumo em PT os autores portugueses e pouco mais.
Obrigado pela visita!

Jojo disse...

Olá André:),
eu estou na mesma situação que a Paula. Proibi-me de comprar mais livros! Já caí na tentação uma ou duas vezes depois disso mas, eram pechinchas! Assim não dá! Sou uma adepta dos alfarrabistas e costumo ter muita sorte. Andava há séculos para adquirir O Mundo sem Fim (2 volumes) de Ken Follet e cada um tem um preço exorbitante ( 25 euros) e quando os vi a 18 euros os dois não resisti. E O melhor de tudo? Estão novinhos!xD
Quanto a isso das colecções, infelizmente há muitos casos desses no nosso país! O inglês é sem dúvida uma excelente opção se bem que, depois passar o dia a estudar nessa língua não me apeteça muito lê-la mas enfim, é o que temos.
Obrigada por mais esta crítica sincera!

Beijinhos*

André Nuno disse...

Olá, Jojo :)
também tenho cortado no orçamento mas confesso que tenho sentido muita dificuldade em consegui-lo no caso dos livros... Até nisso o ler em inglês será positivo uma vez que os livros também são mais baratos e gastando o mesmo poderei adquirir mais obras.
Relativamente aos alfarrabistas parecem-me uma óptima opção mas confesso-te que não conheço nenhum... Será que existem online? Isso seria óptimo. Fizeste um óptimo negócio com esses dois do Follet. :)
Obrigado pela visita.
Beijinho.

nuno chaves disse...

Gostei desta tua opinião, mas assim sendo, tenho de ver muito bem a ordem dos livros. Gosto particularmente de seguir a ordem cronológica das coisas. (o mesmo se aplica ao em cima Alex Cross) que julgo ter sido publicado assim por causa do filme.
Fiquei curioso, pelo livro, pelo aquilo que contas.
Quanto a livros novos... nah, neste momento nada disso, a não ser que encontre promoções ou coisas do género. Estive hoje numa livaria e acho que os livros estão cada vez mais caros, são poucos os que quero ler que estão abaixo dos 17 euros. Tenho entretanto começado a seguir um rumo diferente, com o projecto Roda dos Livros, os livros circulam... logo não tenho necessidade de os comprar.

André Nuno disse...

Nuno,
pelo que pude ver, no Goodreads é muito fácil identificar a ordem dos livros pois eles colocam uma "etiqueta" que nos dá a ordem do livro com determinado personagem, Alex Cross#6 ou Bernie Gunther#7, por exemplo.
Quanto ao preço dos livros não podia estar mais de acordo. Ainda esta semana "levei na cabeça" da minha esposa por comprar tantos livros, pelo que se esperam tempos de austeridade...
Todavia a Wook fez 30% para o Dia do Pai em alguns livros. Pude encomendar dois do Jeff Abbot (€13), o primeiro do Chris Cleave (€3) e o da Olívia Darko (9€). Ontem na Leya, a propósito do aniversário do teu amigo Filipe Roto, vi que estão a fazer 50% e então consegui dois livros já com portes por €20.
Mas foram excepções. Aguardarei as próximas campanhas para poder encomendar mais. Na Wook e na Leya (também há hoje uma promoção com livros de poesia muito baratos) há várias e de outra forma seria-me muito difícil manter o vício...
Gosto bastante de comprar online. Consigo escolher melhor, posso fazer a lista das minhas preferências sem a perder e sou avisado de todas as campanhas.
:)