sábado, 9 de março de 2013

A Trama da Estrela, Vasco Ricardo - Opinião





Sinopse:

"Enquanto uma negra conspiração se vai expandindo por algumas cidades europeias, três adolescentes divertem-se, navegando pela Internet, tentando decifrar mistérios e crimes até então irresolúveis.
Dana, Mark e Rohan são provenientes de nações distintas mas os seus interesses e suas motivações convergem. À medida que uma onda de crimes vai assolando o território do velho continente, os jovens vão interagindo através das comuns salas de chat, falando sobre um infindável número de temas.
O percurso das suas vidas toma, porém, um rumo diferente, acompanhado de estranhos acontecimentos que podem mudar os seus destinos.
Paralelamente, uma sociedade secreta, cujos elementos parecem tão competentes quanto obstinados, move-se de forma obscura e sanguinária, onde todos os seus passos são criteriosamente preparados, na tentativa de alcançar um marco até então inatingível."


Opinião:

A Trama da Estrela, primeiro livro de Vasco Ricardo, versa sobre uma conspiração que toma lugar em diversos países europeus perpetrada por um grupo organizado e violento que deseja transformar o mundo à luz do seu ideal.
Na narrativa vamos, por um lado, acompanhando o desenvolvimento desta Trama. Vemos decorrer a interacção entre cada membro do grupo ENDIVADAL, chefiados pelo Sr. Branco, que, à distância, dá todos os pormenores para que em cada cidade europeia um par dos seus associados coloque em prática um plano bem urdido de acção terrorista. Acompanhamos cada atentado através dos olhos de quem os executa e sentimos o gosto mórbido que cada um sente em tirar a vida do próximo, com o intuito de estabelecer a tal sociedade nova, chamemos-lhe assim.
No outro lado da narrativa, alternando com os episódios de atentados, são-nos apresentados três jovens, de três diferentes nacionalidades que interagem numa sala de chat dedicada a conspirações. À medida que as notícias do que vai ocorrendo pela Europa saem, os jovens questionam-se sobre as mesmas e tentam encontrar um denominador comum entre todas elas, à medida que se aproximam cada vez mais na sua amizade, acabando por se encontrarem todos em solo alemão para o desfecho do enredo.

A minha apreciação a este livro divide-se em duas vertentes, ambas muito marcantes e indissociáveis.

A primeira, no plano da idealização e concepção do enredo, o trabalho do autor está bem feito. A história é apelativa  e o autor tem uma boa capacidade para contá-la de forma interessante e que não afugenta o leitor.
Acredito que, desde o autor queira e saiba limar algumas arestas pode vir a ter bastante êxito. Na minha óptica, desde que procure melhorar e evoluir, deve perseguir este tipo de livros de suspense ou thriller's que são do agrado do público em geral e meu em particular.

A segunda vertente tem a ver com as tais arestas rugosas que, no meu parecer, obstam a que este livro tenha qualidade.
Existe, ao longo de toda a obra, um traço de falta de credibilidade e inverosimilhança que a marca negativamente.

Não gostei da caracterização das personagens. Começa logo pela atribuição dos seus nomes, - no caso dos membros da ENDIVADAL - para mim pouco credível e infantil, mormente no ambiente sério e quase militar que se pretende criar.
As personagens são superficiais,  inconstantes, ocas e tomam atitudes contrastantes com a matriz que se começa por criar. Isto acontece maioritariamente nos membros da associação terrorista mas também nos jovens, onde, à partida, até seria mais compreensível não manter um fio condutor de personalidade.

Existem inúmeros episódios onde fiquei com aquela cara "WTF?!" por falas e atitudes que não percebi de onde vieram. Por exemplo, no início da narrativa existe uma aura de profissionalismo muito forte nos meliantes que se vai perdendo, culminando com o episódio dos "walkie-talkies" onde encontramos diálogos completamente risíveis de tão fracos e desadequados que são...

O enredo em si, embora com algum interesse, é demasiado previsível e sem substância. À página 56 já tinha adivinhado, embora sem certezas e na esperança de que estivesse enganado, quem estava por detrás da trama e quais os seus motivos.

A convergência das duas narrativas é básica. É demasiado forçado a forma como tudo acaba.

Uma das personagens leva dois tiros na rótula e passado seis dias, no hospital, rouba,ela mesma, uma farda de enfermeira para fazer sexo. Esta personagem, adolescente, internada depois de alvejada e sobreviver a uma acção terrorista, só passado 11 dias recebe a visita de sua mãe, que a deixou, durante este período, abandonada para fazer sexo com um alemão que não conhecia de lado nenhum a milhares de quilómetros de sua casa...

E depois... os erros. Um banho deles.
Os enganos nas expressões, as gralhas, os erros gramaticais são inúmeros e aterradores. Não adianta ter uma boa capacidade para imaginar e contar histórias quando há tantas imprecisões e se dá tanto pontapé na gramática.

Ao longo de todo o livro, na mesma frase e pela mesma personagem, alterna-se de forma errática entre o "vós fazeis" e o "vocês dizem", entre o "vós ides" e o "vocês voltaram".

Não é compreensível que a editora publicite ter feito uma revisão ao livro e "coisas" deste tipo passarem despercebidas:

"(...) talvez os países que fabricam tais armas elaboraram  este plano para que pessoas como tu acreditem nessa teoria (...)";

"mobilização" em vez de mobilidade;
" tarde de mais" em vez de tarde demais;
"leis relativas aos emigrantes" no lugar de imigrantes;
"há muitos anos atrás";
"o colega sentou-se no acento" por troca com assento;
"racionar" em vez de raciocinar;
"andar a bater portas" em vez de bater às portas.

E por aí fora. Não me apetece transcrever o livro todo e penso que todos percebem o ponto de vista.

Em resumo, a ideia era boa e a má execução não impede o interesse em acompanhar a história mas tudo demasiado "verdinho", simples e incoerente.
Tive, apesar de tudo, prazer na leitura e, repito, se o autor trabalhar os aspectos negativos, que são muitos, certamente terá muito sucesso à sua espera.

Boas leituras a todos.

15 comentários:

Anónimo disse...

Como é que uma editora publica um livro nessas condições? Juro que não percebo...

Obrigada pela opinião. É sincera e isenta, coisa que vai faltando nos dias que correm.

Paula disse...

Olá André Nuno,
Acho que este é o primeiro livro do qual discordamos em termos de opinião
Como te tinha dito anteriormente e tiveste oportunidade de ler no meu blogue, gostei bastante desta obra.

Olha, comprei o último livro do Roth e conto ler em breve.

André Nuno disse...

Anónimo/a:
Agradeço a visita. Este cantinho tem uma motivação simples e imutável. Leio livros e gosto de partilhar a minha opinião sobre os mesmos.
Nada mais me move e por isso a sinceridade é natural e recorrente.

Paula,
de facto penso ser a primeira vez que discordamos tanto sobre uma obra. :)
Lá vem a história da abóbora que uns amam outros odeiam e o vegetal não se altera por causa disso... :) Cada qual gosta do que gosta e tem os seus motivos para isso. Houve partes interessantes nesta Trama da Estrela e outras que não gostei. Procurei elaborar uma opinião equilibrada, que referisse ambos os aspectos e que fosse apenas o espelho real do que senti ao ler o livro.
Espero que gostes do Roth. Este que li foi o único do autor e gostei bastante. A temática é muito interessante! Sem dúvida considero voltar a revisitar o autor!
Abraço, Paula. :)

CMachado disse...

Olá Andre!!
A temática não me chama a atenção e vou te contar viu esses erros desanimador...

Percebi que gostaste de Philip Roth pelo menos o primeiro dele que leu.
Aqui o nome é "Complô contra a América" não li.

Li um de uma trilogia dele "Pastoral Americana"conta a história do “Sueco” – Seymour Levov, um cara super bem sucedido de família judaica, que viveu em New Jersey e que leva uma vida aparentemente perfeita… E o narrador, Nathan Zuckerman (alter ego do Philip Roth) tenta desvendar os mistérios dessa pessoa que ele tanto admira… O livro conta essa história em detalhes, cheia de surpresas e pensamentos profundos. Amei!

Depois li Complexo de Portnoy é um livro que se passa durante as sessões de terapia de Alexander Portnoy – advogado nova-iorquino, super bem sucedido, judeu, “tarado”, com uma relação mal-resolvida com os pais, com dificuldade de se relacionar seriamente com alguém. É um livro que fala bastante sobre sexo, taras, fantasias e traumas de infância e adolescência. O que menos gostei.

Li "Indignação" livro curtinho, mas tem uns 2 que quero ler a escrita dele é boa não é?
Os livros são bem caros desse autor, por isso demorarei para ler :(

Abç ae
e boas leituras!!

André Nuno disse...

Olá CMachado!
Este Trama da Estrela de facto não correu muito bem...

Gostei bastante da Conspiração/Complô :)
A escrita de Roth é muito interessante. Exprime-se bem, sabe o que deseja contar e onde levar o leitor. Dos livros do autor há, pelo menos, dois que desejo ler: A Mancha Humana e Indignação. Desejo lê-los por esta ordem e, se continuar a gostar da escrita, poderei ler mais obras de Roth mas como vc muito bem falou, aqui também os livros dele são muito caros, por isso tem de ser devagarinho para não magoar o orçamento! :)
Acho que vc iria gostar desse Complô...
Um abraço ae
Boas Leituras!!

PS - Estive investigando o sítio onde vc coloca as opiniões. Como tinha de me cadastrar acabei não vendo muito mas essa semana eu vou fazer o registo e

CMachado disse...

Adoro esse jeitinho de vocês se expressarem!! (escrever)

"devagarinho para não magoar o orçamento" :)
Curto muito!

Abç e
bom domingo!

Anónimo disse...

Para quem gosta de Philip Roth aconselho o "Animal Moribundo". Excelente!

André Nuno disse...

CMachado,
:) estas coisas saem...
Bom Domingo também para vc.

Anónimo,
obrigado pela sugestão. Estive já a "investigar" e gostei da sinopse. Passou a fazer parte da minha listinha de preferências! :)

nuno chaves disse...

A tua opinião acerca deste livro, vai sem dúvida ao encontro da minha.
Encontraste precisamente os mesmos erros gravíssimos que eu encontrei, mas isso tem mesmo a ver com a revisão deste livro que é péssima ou mesmo inexistente.
Quanto ao livro em si, é de facto uma história que poderia ter sido mais aprofundada e aproveitada. Se bem que temos partes bastante interessantes, por outro lado temos uma discurso infantil e ingénuo e sem dúvida previsível.
É um livro com certeza tem capa, contra-capa e páginas, mas é apenas mais um no meio de tantos.Fez a sua função certamente, encher chouriços durante um par de horas, só por isso terá os seus créditos pagos.

André Nuno disse...

Nuno,
o livro, embora não seja enfadonho e, apesar de tudo, continuar a dar vontade de prosseguir com a sua leitura, tem erros em demasia e demasiado graves. Na minha opinião, aliás partilhada por ti, por alguns comentadores e bloggers, nunca poderia ter saído como produto final com esta falta de qualidade e falhas deste calibre. Nota que, enquanto a falta de aproveitamento do que no enredo teria possibilidade de ser melhor explorado pode ser justificado com a inexperiência do autor (embora o livro do Camarneiro também fosse o seu primeiro e nem por isso tenha erros, sendo mesmo uma obra de literatura) a questão da falta de revisão é gravíssima. Não tenho qualquer relação com qualquer editora, o meu objectivo neste cantinho é apenas dizer o que penso sem mais interesses e por isso não tenho pejo em ser muito duro com tudo aquilo que está errado e, sem dúvida, tinha a obrigação de ser diferente. Por isso te disse no Facebook e mantenho com toda a honestidade intelectual: é verdinho, tenrinho e fraquinho.
É a minha opinião. Vale o que vale.
Um abraço.

Guiomar Ricardo disse...

Estamos a analisar as qualidades de um jovem autor que edita o seu primeiro livro,a sua forma de escrever,a sua criatividade e motivação ou estamos por outro lado a avaliar uma editora,o revisor ou até as gralhas da gráfica?!...
Penso que devemos distinguir as coisas.
Eu gostei da obra e penso que é um autor que ainda surpreenderá.

nuno chaves disse...

Olá Guiomar Ricardo, bom dia.
Tomo a liberdade de lhe responder, num espaço que não é meu, mas como foi redireccionada para cá, por uma nota por mim publicada, creio que André Nuno não se irá importar que o faça.
De facto não estamos a analisar um jovem autor, que lança o seu primeiro livro, nem a editora, nem a gráfica... estamos sim (e eu falo por mim) a analisar a leitura de determinado livro. (por acaso é este, poderia ter sido outro qualquer) Logo a análise tenta dar uma opinião clara, e isenta sobre o livro que leu, logo isso inclui a forma de escrever, a forma como se desenvolve a história, a credibilidade da história, que dentro seu género, cumpre a sua função.
Mas salta demasiado à vista a qualidade da edição que é má, logo a análise não poderia deixar passar em branco.Seguramente a culpa não é do autor neste campo. Mas é preferível que nos créditos desta edição a editora, seja honesta e não coloque créditos na revisão que é mesmo muito má e atrevo-me a dizer que não existiu sequer revisão. Tenho o direito de o mencionar, quando paguei pelo livro, certo? (gralhas da gráfica)?
Pena é que o autor, tenha "depositado" a sua confiança e o seu trabalho a alguém que o manchou. (mas isso é lá com ele)
Não vamos confundir mais nada senão a análise do trabalho (como um todo)
Esperemos que sim, que o autor consiga dar que falar, mas não por este motivos. Tenho a certeza que tal pode vir a acontecer se trabalhar com afinco e com a criatividade e motivação que tão bem parece conhecer.
Ainda bem que a Guiomar tem opinião diferente, e que gostou da obra, isso é saudável e bem vindo, principalmente quando podemos discutir diferentes pontos de vista, sobre o mesmo assunto.

André Nuno disse...

Guiomar,
na minha crítica analiso tudo isso, com excepção da motivação do autor porquanto é coisa que me ultrapassa completamente.
Se leu a minha opinião encontrou essa ressalva de que fala. Começo por dividir a minha opinião em duas componentes. A primeira é elogiosa para com o autor. A segunda é crítica para com a editora e também para com o autor.
Se a revisão publicitada pela editora não foi levada a cabo a culpa não é do Vasco.
Já todos os aspectos negativos inerentes à escrita do autor, são da responsabilidade do mesmo.
Se continuar a visitar este blogue muito rapidamente terá a percepção de que os meus pressupostos são muito simples e sempre cumpridos: Gosto de ler.
Gosto de partilhar a minha opinião sobre o que sinto em relação a cada obra.
O livro tem interesse? Tem. Escrevi isso.
O autor tinha um bom conceito? Sim. Escrevi isso.
O autor tem potencial? Penso que sim desde que procure melhorar. De novo, escrevi isso mesmo.
Há erros (de autor e editora)? Sim. Também os menciono.
Por tudo isto sou obrigado a puxar a brasa à minha sardinha e reiterar o conteúdo da minha crítica. Parece-me bastante completa, equilibrada, séria, justa e independente.
Todos nós na nossa vida podemos melhorar se nos apontarem os erros que nos passam ao lado da percepção.
Com opiniões construtivas e realistas, nas quais se enquadra a minha, um autor pode beber e saciar a sede. Pode não gostar do sabor, admito, mas não tenho dúvidas de que para o futuro de Vasco Ricardo como escritor tem muito mais valor uma crítica bem fundamentada do que um oco e falso passar de mãos pelas costas.
Só mais uma questão. O que comento é APENAS A Trama da Estrela. Não aleguei que o autor não tenha qualidade. Afirmei que esta obra não a tem e mantenho-o.
Não aleguei que a Pastelaria Estúdios é uma fraude. Afirmei que este seu produto não está em boas condições e que uma boa parte da responsabilidade lhes pertence.
Só seriedade, objectividade e realismo.
Cumprimentos e boas leituras.

Clarinda disse...

Tenho imensa curiosidade acerca deste autor. Brevemente irei experimentar.
Gostei do seu espaço, muito interessante!

Clarinda

André Nuno disse...

Clarinda,
obrigado e seja muito bem vinda.
Boas leituras! :)