sexta-feira, 8 de março de 2013

A Conspiração Contra a América, Philip Roth - Opinião




Sinopse:


"Um presidente anti-semita na Casa Branca?
Quando o famoso herói da aviação e isolacionista Fanático Charles Lindbergh derrotou esmagadoramente Franklin Roosevelt nas eleições presidências de 1940, o medo invadiu todos os lares judaicos da América. Num discurso transmitido pela rádio à escala nacional, Lindbergh não só tinha acusado publicamente os judeus de empurrarem egoistamente a América para uma guerra sem sentido com a Alemanha nasi, mas também, ao tomar posse como trigésimo terceiro presidente dos Estados Unidos, negociara um pacto cordial com Adolfo Hitler, cuja a conquista da Europa e cuja virulenta política anti- semita ele parecia aceitar sem dificuldade."


Opinião:

A Conspiração Contra a América parte de uma premissa muito interessante por parte de Philip Roth.  O que aconteceria nos E.U.A. se, no decorrer do período da 2ª Guerra, um líder pró-nazi, que bebesse da mesma ideologia fascista e anti-semita que Hitler era arauto, fosse Presidente?
Como poderíamos imaginar, o escritor faz, nesta obra, um exercício de escrita, imaginação e até de, chamemos-lhe, memória "virtual" muito bem conseguido.

Sanford (Sandy) e Philip, filhos de Herman e Bess Roth. É através dos olhos de Philip, o mais jovem deste núcleo familiar, que, com os restantes parentes e Judeus nascidos nos E.U.A., residentes em Newark veremos desenvolver todo o evoluir de um ponto de partida histórico, para um desenvolvimento imaginado muito rico, desaguando novamente na realidade histórica e, desse modo, fechando o círculo e terminando o livro.

Charles A.Lindbergh, o "inocente" pacifista que pretende evitar a intervenção dos E.U.A. numa guerra mundial, vence a corrida presidencial contra o "belicista" Franklin Delano Roosevelt e, paulatinamente, o caos vai-se instalando na América...

Gostei particularmente deste ensaio de Roth sobre o que poderia ter ocorrido num cenário em que os Estados Unidos estivessem do lado contrário no jogo de forças intervenientes no conflito. Foi muito interessante acompanhar a forma como Lindbergh é eleito, como tão facilmente ilude e controla as massas insuspeitas e crédulas. Acompanhar todo o jogo político e a táctica tão prosaica que leva este homem ao comando dos destinos de uma das mais poderosas nações do planeta chega a ser aterrador.

Foi muito apelativo ler, na bela escrita do autor, a perspectiva desta família, com os problemas naturais de qualquer outra - como a crescente descrença dos filhos adolescentes nos seus pais - adicionados aos dos restantes Judeus que se viram a braços com algo sobejamente conhecido na Europa - o anti-semitismo nazi - mas desta feita em solo americano, perpetrado por americanos e com o apoio de muitos Judeus ao "programa" convencidos que estavam a trabalhar para ajudar os seus, quando na verdade estavam a ser fantoches nas mãos do titereiro que os conduzia a uma pretendida aniquilação.

É evidente que o interesse que esta obra suscita reside na premissa que lhe está subjacente, no viver uma situação hipotética através dos olhos daqueles que mais teriam sofrido com a mesma. À luz desse prisma é uma leitura agradável e saborosa. Não podemos, todavia, estar à espera de encontrar uma leitura voraz e avassaladora que nos suga para o enredo e faz esquecer das horas. O desígnio não é esse, certamente.

No geral adorei o livro e a História que podia, muito bem, ter ocorrido, embora não fosse do meu agrado que esta terminasse de forma tão célere e linear. No último quinto do livro Roth acaba com todo o exercício, reenquadrando-o na perspectiva histórica factual que conhecemos. Fiquei com a sensação que foi um final um pouco apressado, pouco imaginativo e demasiado fechado, convencional.

Trata-se, porém, de um excelente livro que recomendo sem grandes reservas.

Boas leituras a todos!

4 comentários:

Iceman disse...

Sabia que ias gostar.
Acabei há dias de ler a Segunda Guerra e surpreendeu-me o facto de existirem muitos factos descritos no livro de Roth que foram verdadeiros.
Os americanos evitaram entrar na Guerra até serem mesmo obrigados, pese embora o apelo dos ingleses e franceses para o fazerem. E há também os pilotos americanos que, sem consentimentos do governo americano, iam para o Canadá para lutar contra os nazis.

André Nuno disse...

É um livro muito interessante e de facto gostei bastante. O conceito que Roth explora é muito bom e a leitura é agradável.
De facto os E.U.A. foram renitentes em entrar na Guerra mas depois de lhes "ofender" o território e o orgulho creio que não tinham muito como fugir... :)
Um abraço.

Tiago M. Franco disse...

Já o tenho há cerca de um ano na estante. Será umas das minhas próximas leituras.
Philip Roth é um escritor que admiro.

André Nuno disse...

Tiago,
penso que irás gostar bastante desta leitura. Este foi apenas o meu primeiro livro de Roth mas gostei bastante.
Deste autor tenho interesse, pelo menos, em A Mancha Humana e Indignação. Se também gostar destes dois procurarei outros títulos que me despertem o interesse.
Abraço.