domingo, 17 de fevereiro de 2013

No Meu Peito Não Cabem Pássaros, Nuno Camarneiro - Opinião




Sinopse:
Que linhas unem um imigrante que lava vidros num dos primeiros arranha-céus de nova iorque a um rapaz misantropo que chega a lisboa num navio e a uma criança que inventa coisas que depois acontecem? Muitas. Entre elas, as linhas que atravessam os livros. Em 1910, a passagem de dois cometas pela Terra semeou uma onda de pânico. Em todo o mundo, pessoas enlouqueceram, suicidaram-se, crucificaram-se, ou simplesmente aguardaram, caladas e vencidas, aquilo que acreditavam ser o fim do mundo. 
Nos dias em que o céu pegou fogo, estavam vivos os protagonistas deste romance - três homens demasiado sensíveis e inteligentes para poderem viver uma vida normal, com mais dentro de si do que podiam carregar. 
Apesar de separados por milhares de quilómetros, as suas vidas revelam curiosas afinidades e estão marcadas, de forma decisiva, pelo ambiente em que cresceram e pelos lugares, nem sempre reais, onde se fizeram homens. Mas, enquanto os seus contemporâneos se deixaram atravessar pela visão trágica dos cometas, estes foram tocados pelo génio e condenados, por isso, a transformar o mundo. Cem anos depois, ainda não esquecemos nenhum deles. 
Escrito numa linguagem bela e poderosa, que é a melhor homenagem que se pode fazer à literatura, No Meu Peito não Cabem Pássaros é um romance de estreia invulgar e fulgurante sobre as circunstâncias, quase sempre dramáticas, que influenciam o nascimento de um autor e a construção das suas personagens.



Opinião:
No Meu Peito Não Cabem Pássaros é o romance de estreia de Nuno Camarneiro, Prémio Leya 2012 (com a obra Debaixo de Algum Céu), autor que inicialmente se dedicou à micro-narrativa, facto do seu percurso que notoriamente influencia a sua escrita neste romance.
Esta obra narra três histórias distintas e individuais de três homens, Fernando, Karl e Jorge, por altura da passagem de dois cometas em 1910. Este facto é importante para ilustrar a sociedade e as características comportamentais da época mas, na minha opinião, não é determinante para o desenvolvimento do enredo a não ser para demonstrar o desenquadramento dos personagens relativamente ao meio onde vivem. Pergunto-me se alguma vez se sentiriam enquadrados onde quer que fosse, mas isso é outra história.

As três narrações aparentemente isoladas de três homens separados pela geografia, idade e quase tudo mais acabam por ter diversos pontos de contacto e similaridade. Todos buscam incessante e desesperadamente algo, todos são únicos, inquientos, qualquer um deles está em inconformidade com os seus conterrâneos e consigo mesmos, todos esbarram em relações impossíveis de manter e para qualquer um numa determinada parte da sua vida o mar vê-os atravessarem-no partindo e regressando aos seus portos de origem mais ou menos seguros.
Fernando é, claramente, Pessoa.
Jorge é, sem dúvida, Borges.
Karl é, de alguma forma e segundo opinião transcrita na sobrecapa do livro, Kafka. Confesso que para mim essa relação não foi muito fácil de identificar. Talvez tenha a ver com os sobressaltos que afectam Karl, numa lógica Kafkiana e não tanto, como nas outras duas narrativas, a exploração mais biográfica dos autores.
A três narrativas vão-se alternando em capítulos muito curtos, intensos e literários, pois este livro é claramente uma peça de literatura que entra directamente para o que de melhor qualidade se escreve em português contemporâneo.

Estamos perante um romance muito bem escrito que deve ser lido à velocidade própria. Sabe melhor se digerido calmamente, deixando cada sabor e fragrância maturar no palato e espicaçar a nossa imaginação.

Admito que não será uma obra para todos os gostos mas para quem digere este género de romances de cariz literário, introspectivo e abstracto é uma obra maravilhosa. Não notei nenhum daqueles erros de principiante que por vezes afectam os escritores na sua estreia.

Nuno Camarneiro é um escritor maduro e brilhante, apesar de este ser o seu primeiro romance.

Gostei.

Boas leituras!

7 comentários:

nuno chaves disse...

Convenceste-me Companheiro. darei com certeza oportunidade a Nuno Camarneiro em breve e depois poderemos falar mais claramente. o que li da tua opinião parece-me de facto bastante interessante.
No inicio do artigo, creio que te referes ao autor, como Prémio Leya 2012 certo? e não ao livro.
Pela tua opinião pensei em "O teu rosto será o último" de João Ricardo Pedro, que terminei recentemente, como bem sabes. creio que também irás gostar muito (se o leres.
Deixo-te um abraço. Bons livros para ler.
p.s. já reparei que estás a ler Sangue Ruim (muito bom, dentro do seu género)

André Nuno disse...

Nuno,
de facto o Camarneiro foi prémio Leya 2012 com outra obra. Já rectifiquei o lapso no post, obrigado. Quando fiz a pesquisa do autor vi que tinha ganho o prémio com o outro livro mas pela sinopse achei que preferiria o seu primeiro romance já que o que lhe valeu o prémio é algo de, aparentemente, mais abstracto. Acho que narra sobre o purgatório... Quando escrevi a opinião esqueci-me desse facto.
Talvez venha a ler o livro que sugeres e há pouco terminaste mas primeiro deverei prestar atenção ao da Clara Correia. Deixou-me curioso. De qualquer forma serão ambos numa fase posterior. Como bem notaste estou a ler o Sangue Ruim e estou a adorar o livro. Só paro porque não tenho tempo para mais. De tanto estar a gostar pondero dedicar-me a mais alguns títulos de thrillers e policiais. Não serão literatura mas dão-me um prazer imenso e ninguém me obriga a ler só literatura.
Leva, por favor, um abraço e um obrigado pela visita.
:)


teresa dias disse...

Olá!
Tenho um selinho para ti no meu rol. Passa por lá.
Bjs.

Paula disse...

Vou ter oportunidade de ler em breve :)
Espero gostar!

André Nuno disse...

Paula,
como se pôde constatar na minha opinião gostei bastante do livro. Estou convencido de que acharás a escrita do Camarneiro muito interessante. É um livro "maduro". Para ser apreciado e degustado. Na minha opinião encontramos nesta obra uma peça de literatura. Daquela boa! :)
Espero que gostes também. Estou ansioso por te ler a opinião.
Um abraço, Paula!

EfeitoCris disse...

Adoro e destaco

"Estamos perante um romance muito bem escrito que deve ser lido à velocidade própria. Sabe melhor se digerido calmamente, deixando cada sabor e fragrância maturar no palato e espicaçar a nossa imaginação."

;)

Já li o primeiro e partilho aqui contigo o link:
http://efeitodoslivros.blogspot.pt/2013/04/debaixo-de-algum-ceu-nuno-camarneiro.html

Quem sabe se avizinha nas próximas leituras.

Gosto muito das tuas considerações, continua, que eu continuo a passar por cá.

bj
cris

André Nuno disse...

Olá, Cris.
Obrigado pelas simpáticas palavras. Este livro é uma obra de literatura. Sem mais. :D
Vou já ler a tua opinião.
Boas leituras! Bj