sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A Vida de Pi, Yann Martel



A Vida de Pi de Yann Martel é um livro muitíssimo interessante.
Dividido em três partes, trata-se da história maravilhosa de Piscine Molitor Patel.

Na primeira parte desta obra, o autor retrata o nosso herói, a sua infância, família, História, a sua, chamemos-lhe diferente, fé. Pi é simultaneamente Hindu, Cristão e Muçulmano. Não encontra nenhuma contradição nesta profissão de fé tripartida. Apenas um forte elo de ligação: o seu amor por Deus.  Basicamente define-se e dá-se substância ao Pissinha.
Lança-se luz até à emigração de Pi Patel e da sua família para o Canadá.
Fui levado a pensar que este romance se deteria demasiado sobre a religião. Aliás o autor refere tratar-se de uma história que nos fará acreditar em Deus.

Fiquei desconfiado.

Na segunda parte do romance, somos levados em viagem através do Pacífico com Pi e um tigre de bengala num bote salva vidas. Únicos sobreviventes não efémeros do naufrágio do Tsimtsum, a embarcação que os levaria a todos (Pi, família e animais do seu Zoo) para Winnipeg.
Viajamos durante sete meses com estes dois companheiros numa história maravilhosa cheia de tribulações da pior espécie. Força-se a vida ao seu limite, que fica para além do limite da própria humanidade. Sentimos cada brisa e cada vaga que abana o destino de Pi e de Richard Parker, (o seu tigre de bengala) como se do nosso fim se tratasse.
Avançamos ao sabor da corrente até ao México, passando de caminho por uma inacreditável ilha flutuante.
O tema religião teve aqui uma expressão, aparentemente, ténue, mínima.

Fiquei muito satisfeito.

Na terceira e última parte da obra acompanhamos os representantes da empresa responsável pelo Tsimtsum numa entrevista a Pi Patel para apurar factos e determinar responsabilidades. Piscine a estes relata a sua história, deixando os japoneses extremamente incrédulos e desconfiados.
Pressionado, Pi conta então uma outra versão da sua provação sem animais no relato. Uma versão crua, horripilante e dolorosa. Uma história sem fermento... e muito sangue.
Para cada animal da primeira história há um humano que lhe ocupa o lugar e também a sorte.
Com exceção de um.

Qual a história verdadeira fica ao critério de cada um.
Uma é a alegoria da outra.
Alguma delas será falsa?
Já fiz a minha escolha.
Pi fez a sua porque Deus tem preferência no assunto.

Estamos, pois, perante uma obra maravilhosa, rica e muito interessante.
Yann Martel escreveu um livro soberbo.

Fiquei maravilhado!



4 comentários:

Paula disse...

Olá,
Pelo teu comentário tu rendeste-te a esta leitura :D
Eu também adorei este livro e o filme também está muito bem conseguido, claro que jamais conseguirá passar o que o livro passa, mas no geral, está bom!
Vejo que lês Comarc, agora é uma leitura pesadota :D

André Nuno disse...

Paula,
de facto gostei bastante deste livro, sobretudo do fim. Não estava à espera daquela volta e achei muito interessante.
Ainda só li 28 páginas do Cormac mas Banho de Sangue parecer-me-ia um bom título para tanta violência...
Veremos no que isto dá.
Abraço!

nuno chaves disse...

Parece que sempre gostaste do "pissinha" :D
É um bom livro, mas não não extraordinário, como o pintaram.
A crueza da última parte é de facto arrepiante e desconfortável.
Um livro de fé, e sobrevivência.

André Nuno disse...

Nuno,
assim foi. Gostei do livro no seu todo. Temi que se debruçasse demasiado ou pelo menos demasiado explicitamente sobre religião tentando "vender" alguma ideia. O autor não seguiu nesse sentido, o que me satisfez. O final do livro está muito bem conseguido, parece-me. A nova história que Pi é forçado a contar enriquece todo o romance e simultaneamente fecha o ciclo e volta-se para o conceito de religião do "pissinha".
Para Pi a história verdadeira é a visão romenceada com os animais. Para os ateus a narrativa real é a sangrenta e crua.
Para os agnósticos (essa estirpe tão terrível) uma história é a alegoria da outra. Em qualquer uma das narrativas existem factos indesmentíveis, estejamos a falar de acções passadas no real ou apenas na cabeça do Pi. Mas o que é o real?
Não é a realidade apenas aquilo que o nosso cérebro nos diz ser?
Acho mais divertido ser agnóstico, poder questionar e reflectir qualquer temática do que estar limitado por uma fé e pela dicotomia de ou acreditar em algo ou então afirmar o seu contrário.
Acredito no Pi. Acredito no Richard Parker. Seja o dito um animal ou uma mera projecção da animalidade que cada um contém não tenho dúvidas que foi ele que matou, tolheu, aterrorizou. Mas foi esse tigre que salvou o Pi.
Como se chamará o meu tigre? :)
Abraço.