quinta-feira, 15 de março de 2012

O Quinto Dia, Frank Schätzing - Opinião


Sinopse:


Acontecimentos bizarros, nas profundezas do oceano, perturbam os cientistas. No litoral do Peru, um pescador é atacado por um cardume.
Na costa do Canadá, baleias atacam embarcações turísticas. Furacões e tsunamis matam todos à sua passagem.
É o contra-ataque de um sistema que foi equilibrado antes de ser dilapidado pela intervenção humana. Ou seja: a teoria de que a actividade humana criou situações que afectam um equilíbrio delicado, que até agora abrigou formas de vida e ecossistemas complexos.
O mar é o instrumento de vingança.
O Quinto Dia revela a insurreição da natureza contra o homem, num cenário global.
Com o mundo à beira do abismo, uma verdade terrível é descoberta.
O mais assustador é que essa verdade que Schätzing aqui descreve é, não apenas possível, mas bastante provável.


Opinião:

O Quinto Dia do alemão Frank Schätzing é uma obra impressionante. Grande em mais do que um sentido.
Estas 912 páginas, estas 1541g de livro traduziram-se - para além de uma tendinite - numa agradável surpresa. Estamos perante um romance que pode ter uma leitura superficial - comercial - para a qual está bem apetrechado. Tem humor, bastante acção, - o seu QB de tiros e pancadaria - romance, bons e vilões, ameaças globais, catástrofes naturais, etc.
Por outro lado O Quinto Dia revelou-se uma obra que pode ser lida com outros olhos e também nesse campo apresenta argumentos com substância suficiente para promover a reflexão, a dúvida, a indagação.
Terminei o livro com a sensação de que se vale mais enquanto obra comparativamente com a ideia que dele fiz no início da sua leitura.

Este romance vai muito para além das alterações climáticas e de catástrofes naturais, sejam elas provocadas  pela acção humana de forma directa ou não. Reflecte-se o nosso papel no planeta e a consciência que temos do nosso lugar, do nosso real valor enquanto espécie no mundo que habitamos.

Através da presunção, vaidade e imbecilidade dos Norte Americanos, por exemplo, aborda-se a questão de todas as culturas que se consideram "eleitos" e por esse motivo se sentem plenamente justificados em fazer tudo o que lhes parece ser conveniente. Aos olhos dessa convicção tudo o resto se torna insignificante, até a vida do Homem.

O nosso egocentrismo. Individual e colectivo.


O Quinto Dia tropeça nas reacções humanas ao desconhecido. As possíveis respostas da cultura ocidental - e cristã - face à constatação de que no mundo que supostamente lhes é pertença por divino direito se descobre uma forma de inteligência ancestral e infinitamente superior, com uma organização evolutiva ímpar que relega a raça eleita à sua humilde condição de mamífero recém-chegado a um planeta - com tudo - que o precede.


A páginas tantas - muitas - faz-se quase um ensaio sobre a resposta das religiões - principalmente das três "gladiadoras" monoteístas à existência dessa inteligência ancestral e superior.
Quais as implicações na sua doutrina?
Quais respostas seriam dadas?


Na obra de Shätzing pondera-se sobre a capacidade de uma inteligência superior entender com algum grau de profundidade uma outra que lhe seja infimamente menor - e vice-versa.
Indaga-se pela definição de inteligência e chega-se à extraordinária dificuldade de a definir correctamente.

Tudo isto num romance que, ao contrário do que advoga a sinopse, toca muito mais do que apenas "o fim do mundo".

Leiam. Não vos disse se o mundo acabou ou não.
Recomendo, apesar do braço que segura o livro ficar inutilizado durante alguns dias devido ao esforço...

Decidi que não mais darei pontuações aos livros que leio.
A partir de certa altura - esta - começa a ser difícil estabelecer considerações quantitativas. Consigo, todavia, ter a noção de ter gostado de uma obra um pouco mais ou um pouco menos do que outra. Nesse sentido, a lista de livros lidos encontra-se pela ordem de preferência - do que mais gostei (no topo), para o que menos me cativou (no fundo). Assim permanecerá.

Boas leituras.

P.S. Afinal decidi entregar-me de seguida ao Maugham... ;)
Obrigado pelos argumentos.

20 comentários:

Offuscatio disse...

Lendo a sinopse, jamais diria que seria esta a impressão que podemos obter desta leitura. Conseguiste deixar-me curiosa :)

Gabrielle disse...

Concordo contigo André. Muitas vezes os leitores são enganados pela atribuição das tais estrelas, ficando para segundo plano a crítica em si. Gostei da tua opinião. Nunca tinha ouvido falar no livro, com certeza foi mais um que passou ao lado dos circuitos comerciais. Parece-me uma boa aposta para leitura.

Continuação!

Iceman disse...

Olá André!

Muito interessante a tua opinião que vai no sentido daquilo que me havia parecido quando li outras opiniões.

Sinceramente não lhe retiro valor, mas parece-me ser um livro que, dada também a sua envergadura física, cai um pouco na modorra. Aliás, parece-me que tu próprio indicias isso.

Outra coisa, e nisso somos parecidos, gostei do tom humorístico da opinião.

Abraço!

Cristina Torrão disse...

Estava à espera da tua crítica a este livro. Nunca o li, mas ele foi um sucesso estrondoso aqui na Alemanha, quando saiu.
O meu marido ouviu-o em audiolivro e adorou. Estava realizado à maneira de teatro radiofónico, com várias vozes para as diferentes personagens, mas não sei se foi encurtado, às vezes, fazem isso.
A versão alemã, em livro de bolso, sempre é mais levezinha...

André Nuno disse...

Offuscatio,
gostei bastante deste livro. Parece-me que a sinopse procura explorar a vertente sensacionalista da obra, o que a reduz. Não digo que não a tenha, apenas que tem bastante mais para além disso.
;)

Gabrielle,
estava a sentir dificuldade em atribuir notas. Procurava ser justo com o que sentia mas também comparar com os outros livros que já tinha lido. Estava a misturar tudo. Além do mais, para que serve a atribuição de um valor?
Tens razão, o que interessa é a opinião. É esse o motivo que nos leva a partilhar.
O livro foi muito vendido na Alemanha. Descobri-o por acaso, quando pesquisava o autor por causa de um título recente. Achei este de 2007 bem mais apelativo e por isso decidi-me por ele.
Continuação!

Iceman, olá!
O livro é muito interessante. É exaustivo na explicação de todos os conceitos inerentes à vida marinha. É um trabalho de investigação brutal mas, de facto, essa é a parte que vai enchendo... O autor não parece preocupar-se com as páginas que necessita para passar o que tem para dizer. Por um lado isso é óptimo, nota. Mas por outro... Digamos que por vezes as explicações exaustivas são totalmente absorvíveis e outras vezes são apenas... exaustivas. O balanço desta característica neste livro não é negativo, apesar de tudo.
De facto somos parecidos no que toca ao traço humorístico. ;)

Obrigado.
Um abraço!

Cristina,
aí está algo que nunca experimentei. Nunca "ouvi" um livro. Será que gostaria? Não sei dizê-lo.
O Quinto Dia é um romance que me deixou satisfeito. Inicialmente esperava apenas o livro da sinopse. Está lá, sem dúvida, mas encontrar algo mais profundo e reflectivo - pelo menos foi assim que o li - foi surpreendente e recompensador.
A versão de bolso deve ser uma boa opção... embora acredite que mesmo assim seja preciso um bolso grande!
:)

Cristina Torrão disse...

Também nunca "ouvi" um livro. Uma vez comecei um, mas desisti. Talvez não fosse o livro certo, era uma obra humorística, de um escritor alemão de que agora nem me recordo o nome (nenhum clássico, um escritor actual). Também não se tratava de "teatro", era apenas a leitura do livro.

O audiolivro, na Alemanha, é uma grande indústria. Alguns limitam-se à leitura, outros, são reescritos nesse tipo de teatro radiofónico. O meu marido aprecia muito porque ele anda de comboio mais de hora e meia por dia e tem dificuldade em concentrar-se na leitura, quando há ruídos à sua volta. De maneira que o audiolivro acabou por ser a solução ideal para ele. Requisita-os na biblioteca (normalmente em CD) e não custa nada passá-los para o formato MP3 ;)
Ele gostou muito de um romance histórico que ouviu, com várias personagens e os sons respectivos (de batalhas, de animais, etc). Aconselhou-mo, mas eu não aprecio a escritora em questão (chama-se Rebeca Gablé e é alemã). Por isso, também ainda não me deixei seduzir pelos audiolivros ;)

Leitora disse...

Olá Morrighan
Tens um tag no meu blog para ti, passa por lá para veres e participares.
BOas leituras;)

Paula disse...

Olá :)
Finalmente vim comentar :P
Como te disse, comecei a leitura deste livro e depois interrompi. Mas deu para ver que é um bom livro, a leitura é bastante interessante, assim me pareceu :)

Quanto às pontuações, no início do blogue eu também dava, com o tempo, eu ficava confusa em relação a outros que já tinha pontuado. Assim tal como tu desisti :P mas consegue-se perceber pelos comentários se gostamos muito ou se gostamos menos de um livro :D
Abraço

Ps- estou na expectativa de ler a tua opinião à "Servidão Humana". Em breve também o quero ler.

pertita disse...

Olá!
Deixei um desafio para ti no meu blog!
Boas leituras!

Leitora disse...

Olá André
Fiquei muito curiosa com a temática do livro.
Gostei muito da tua opinião.
Boas leituras!

tonsdeazul disse...

Olá André!
Que é feito de ti? Não tens dado notícias...
Por onde andam as leituras agora? ;)
Bom fim de semana

Ana disse...

Olá,
Deixo-te uma recomendação: Teoria das Merdas de Vítor Rodrigues.

Ana disse...

Olá,
Deixo-te uma recomendação: Teoria das Merdas de Vítor Rodrigues.

Paula disse...

Olá André, espero que a tua pausa no blogue se deva a excesso de trabalho :)
Abraço e volta logo ;)

Ana Carneiro disse...

Estava agora a escrever um post em que falo de livros e como costumo escrever em Inglês e Português estava à procura da tradução. Cheguei aqui ao blog e adorei a tua visão sobre o livro.
Comprei-o numa feira do livro há alguns anos e pela sinopse pensei que seria um bom livro para levar de férias, uma leitura "leve", não no peso claro, mas no tal sentido superficial. Acabei por ficar viciada no livro e não durou as férias inteiras.. Pelo meio comecei realmente a reflectir sobre o livro e quando acabei, recomecei-o! (sim, gostei dele a esse ponto) São imensas as reflexões que se podem retirar deste livro e diria mesmo que se pode crescer muito à medida que se avança pelas suas páginas!

My Own Project

marga disse...

Estou a lê-lo pela segunda vez. Acho fantástico. Apesar da Edição da Dom Quixote ter erros de meia noite (e às vezes faz-me irritar um bocadinho) a história é muito boa e a critica está bem feita. Para quem é apaixonado pelo mar e pelos espectaculares Deep Rover ( :D ) não vai conseguir parar de ler.

marga disse...

Estou a lê-lo pela segunda vez. Acho fantástico. Apesar da Edição da Dom Quixote ter erros de meia noite (e às vezes faz-me irritar um bocadinho) a história é muito boa e a critica está bem feita. Para quem é apaixonado pelo mar e pelos espectaculares Deep Rover ( :D ) não vai conseguir parar de ler.

André Nuno disse...

Olá, Marga.
Agradeço as tuas simpáticas palavras mas antes de te endereçar esse agradecimento permite-me desculpar-me pelo atraso na resposta. Estive uns dias sem vir à "rede" e nesse hiato permiti que ficasses "pendurada".
Concordo com o que dizes. É curioso porque uma das circunstâncias que mais irritação me causa na leitura de qualquer livro é a existência de erros, sejam estes gramaticais, de tradução ou revisão.
Volta sempre.
Boas leituras!

Igor Nascimento disse...

Olá, excelente sua resenha.

Aqui no Brasil infelizmente esse excelente livro foi lançando com essa capa e com esse título >> http://skoob.s3.amazonaws.com/livros/7044/O_CARDUME_1242773923P.jpg

quem ver pensa q o livro é sobre um maldito cardume de peixes assassinos que nem os filmes de horror tresh. e junto com o preço, deve ter sido um dos motivos para ele não ter feito muito sucesso por aqui

tive raiva da editora brasileira na hora que vi as versões europeias hahaha.

André Nuno disse...

Olá, Igor.
As editoras têm muitas decisões que não parecem ter sentido. Por vezes chego a pensar se os responsáveis gostam de ler... Enfim.
Também a mim me dá umas raivas dessas...
Obrigado pela visita!