domingo, 4 de março de 2012

Nas Trevas Exteriores, Cormac McCarthy - Opinião



Sinopse:

Nas Trevas Exteriores é uma fábula que se desenrola algures em Appalachia. Uma mulher tem um filho do seu irmão. O rapaz abandona o bebé na floresta, dizendo-lhe que este morrera de causas naturais. Ao descobrir a mentira do irmão, ela parte sozinha em busca do seu filho. Ambos os irmãos vagueiam separadamente pelas zonas rurais e são aterrorizados por três estranhos, precipitando-se a história para uma estranha e apocalíptica resolução.


Opinião:

Dois irmãos, sem mais ninguém no mundo, têm um filho, fruto da sua relação incestuosa. No dia em que a criança nasce, num parto atribulado onde Rinthy dá à luz sem qualquer assistência para que ninguém fique a conhecer o seu segredo, Culla decide abandonar o filho de ambos na floresta para que morra. Alguém encontra o bebé e trata da criança. Rinthy acaba por descobrir que o seu filho está vivo e parte à sua procura. Culla parte também, alegadamente à procura da irmã. Da viagem obstinada e sem destino de cada um, dos seus encontros com pessoas de diferentes populações, do sofrimento e morte que Culla encontra por onde quer que passe, da busca em que a inocente Rinthy se mostra - diria mesmo absurdamente - esperançada, se faz a história desta obra.
Uma viagem sem rumo onde por vezes parece que a única coisa que importa é continuarem, cada um por sua banda, a mover-se incessantemente.

Foi uma surpresa a linguagem utilizada onde se procurou retratar o modo de viver, pensar e, claro está, de falar da antiga América. Condicionado pela opção do autor, o tradutor teve de lhe ser fiel e ao longo de todo o romance encontramos expressões como "tás", "inda", "homessa", "hades", e toda uma panóplia infindável de termos antigos utilizados no discurso. Certamente não haveria como fugir a esta circunstância, já que a mesma se tratava do objectivo, aliás elogiado por alguns, do próprio autor mas não gostei muito.

Embora se utilize vocabulário rico nem sempre houve mestria na sua diversificação e sempre que algum dos dois irmãos ia a algum lado "estugava o passo". Em toda a obra os irmãos não paravam quietos e por isso levei um banho incessante de "estugar o passo".
Logo no início um juiz pergunta a Culla se este está à procura de um trabalho firme. Ao que este responde que procura qualquer tipo de trabalho. A tradução para trabalho firme vem, muito provavelmente de steady work. Acontece que "steady work" se deveria traduzir para trabalho fixo, ou duradouro ou outro qualquer sinónimo. Os meus conhecimentos da Língua Inglesa resumem-se aos adquiridos no secundário. Não tenho qualquer prática de Técnicas de Tradução e até poderei estar errado mas depois de identificar o que poderá ser uma opção de tradução infantil, aliada aos constantes "estugar de passo" não me conseguia concentrar em nada mais do que procurar identificar quais as palavras que estariam no inglês original e se o tradutor estaria a fazer o seu trabalho...

Com tudo isto levei demasiado tempo a ler um livro que se devorava em três ferradelas.

Apesar de alguns aspectos negativos, dos quais alguns até se podem prender com questões de tradução, existem diversas vertentes onde a obra é exemplar.

No decorrer da história encontramos constantemente o Mal. Não se encontra no autor qualquer pudor em colocar os de má rês a fazer o que deles se espera: torturar física e psicologicamente, agredir, estropiar, matar. É uma escrita crua que me agradou, embora confesse que passei o livro encolhido, sempre à espera do pior, da próxima desgraça, da próxima infelicidade.


Fiquei com a sensação que McCarthy tem uma capacidade incomensurável de capturar a imagem que vê na sua mente e passá-la de forma nítida para o leitor sem filtros nem rodeios. Não sendo muito descritivo é extremamente imagético ou pictórico e não tive qualquer dificuldade em ver com os meus olhos tudo aquilo que Culla e Rinthy estavam a observar.


Termina tudo tão depressa como termina: abruptamente, sem aviso.


Nas Trevas Exteriores de Cormac McCarthy foi para mim livro estranho.
Logo à partida tinha expectativas bastante elevadas devido às críticas muito positivas ao autor que encontrei em diversos locais.


Fiquei com a sensação que talvez esta obra não faça justiça à escrita do autor. Voltarei ao autor, talvez com "Meridiano de Sangue", a sua obra prima, para completar uma opinião que se encontra ainda muito indefinida e aberta.

13 valores.

E os meus caros que já leram este senhor façam o favor de se sentar aqui ao meu lado e dizer algo mais...

:)

23 comentários:

Carla M. Soares disse...

Não li este senhor, mas tenho muita formação e experiência com a lingua inglesa e dou constantemente por "erros" do género do que apontaste. É frequente conseguir perceber perfeitamente qual é a expressão original, a partir de uma expressão portuguesa que não faz lá muito sentido ou não é natural. Quanto ao 'estugar o passo', só lendo em inglês se poderia saber se a culpa é do autor, que foi pouco cuidadoso, ou do tradutor, que não soube encontrar mais expressões para a variadade de modos de andar (como de olhar e sorrir etc) que têm palavra própria em inglês...

André Nuno disse...

Carla,
perspectiva interessante... Confesso que não pensei na possibilidade de no original constar sempre a mesma expressão e o tradutor sentir-se na obrigação de transcrever. ;)
Mas não sei o que para mim será pior, falta de diversidade vocabular do tradutor... ou do próprio autor. :p
Obrigado.

Cristina Torrão disse...

Nunca li um livro de McCarthy, já tenho lido extractos de obras suas e artigos sobre ele. Tem-me agradado tudo. Mas, enfim, é sempre possível que um autor bom escreva um livro mais fraco. Por outro lado, também é verdade que há traduções que dão cabo de um bom livro.

André Nuno disse...

Cristina,
esta coisa das traduções também é um bocadinho de embirração minha mas quando detecto aquilo que se pode tratar de um erro perco a concentração - o interesse - e nunca mais olho para o texto da mesma forma. Fico desligado, quase desconfiado...
Sobre o autor só tenho lido críticas positivas, portanto mantenho a minha opinião em aberto até ler outra obra do McCarthy.

André Nuno disse...

Além do mais não posso dizer que não tenha gostado porque encontrei diversos aspectos muito interessantes. :)
Obrigado.

Paula disse...

Fiquei curiosa com este livro.
Vou ver se o encontro em 2ª mão :) queres vender o teu? (a preço de alfarrabista claro :P)
Tens de ler "A Estrada" já leste?

teresa dias disse...

Olá André Nuno,
Quero dizer que gostei muito da tua opinião sobre este livro. Agora tens de ler "Meridiano de sangue" para ficares "apanhadinho" pelo autor. Acredita em mim, Cormac entranha-se em nós (tal como Philip Roth) para sempre. "Nas trevas exteriores" é, para mim, o mais fraco de todos os que li, e já foram bastantes, mas eu sei que o próximo será fantástico...
Quanto à tradução, clarifico desde já que não sou especialista, nem sequer tenho o domínio da língua inglesa (oh! como eu gostaria...) mas o que já li sobre o tradutor e o método que aplica não deixam quaisquer dúvidas sobre as suas capacidades.
Quando leres "Suttree" (eu sei que irás ler) começa pelo prefácio para entenderes como trabalha Paulo Faria, o grande tradutor de um escritor ENORME.

Nuno Chaves disse...

Tenho Meridiano se Sangue para ler há uns 3 ou 4 anos e nunca lhe peguei assim como este país não é para velhos que nunca li e também não vi o filme. De qualquer das formas tenho ouvido sempre coisas muito positivas acerca deste autor.
Gostei francamente da sinopse deste "Nas Trevas Exteriores" e muitas vezes penso que pensarem que estão a seguir a forma correcta de tradução tentando ser o mais fiel possível ao texto, os tradutores caem um pouco no exagero.
Eu tenho uma vantajem muito grande em relação a vocês: porque não domino o inglês e se por um lado isto pode ser uma mais valia ao ler um livro, por outro estou a ir completamente ao engano e ao sabor da corrente do tradutor, perdendo assim a mensagem e essência que o autor quer transmitir ao leitor.
Ao contrário do Inglês domino demasiadamente bem o francês e aconteceu-me precisamente a mesma situação em "A Linha da Beleza" em que o exagero por parte do tradutor dificultou demasiadamente a leitura do livro, mas espalhou-se completamente na tradução das muitas expressões Francesas que se via claramente não ser o forte do tradutor, aí sim pude comprovar que a tradução por vezes tem destas coisas.

Cristina Torrão disse...

A Teresa Dias focou um aspecto interessante: o tradutor de Cormac McCarthy costuma ser bom. Já li artigos que ele escreveu na revista LER sobre as viagens que fez aos EUA, uma das vezes, até se encontrou com o próprio McCarthy. Diria que é um tradutor muito competente. Será o mesmo que traduziu este? Já agora, diz-nos o nome deste, André!

Essa coisa de perderes a concentração, quando detectas erros de tradução, não é embirração (desculpem estas rimas todas ;), mas é uma boa maneira de ler livros. Para mim, um bom escritor deve tornar-se invisível, ou seja, não nos deve distrair da leitura do livro (e o mesmo se aplica ao tradutor). Por isso, embirro, por exemplo, com escritores que deixam transparecer a sua opinião sobre algo que acontece (a não ser que se trate de um ensaio, ou de outro tipo de não-ficção).

Carla M. Soares disse...

o selo liebster blog ainda circula. Tens um no monster blues. Foi desta.

Também acho que o tradutor deve ser invisível... e que um bom tradutor é um escritor, já que reescreve na sua lingua... logo não pode ser invisível... e como desenrolamos este novelo?

André Nuno disse...

Boa tarde a todos.
Lamento tê-los feito esperar mas a vida tem a irritante mania de interferir nos meus planos para ela... ;)

Paula,
Acho que devias ler este livro. Acredito que pelo facto de não teres a as expectativas mais elevadas a obra te surpreenda pela positiva.
Lamento não poder vendê-lo... É aquela coisa... é meu! Se o lesses estarias a espreitar-me para a alma... Desculpa... :p
Faço parte do grupo Troca de Livros (o nome diz tudo) embora nunca tenha feito nenhuma troca... Se ainda não fizeres parte e for do teu interesse posso convidar-te para membro.
Depois diz qualquer coisa.
A Estrada parece-me um livro extremamente forte, a convidar para seguir pelas nossas estradas interiores... Fica para depois do Meridiano de Sangue. Que te parece?
Abraço!

Teresa,
muito obrigado. De facto essa obra levantou-me bastante interesse e será a próxima que lerei desse autor.
O tradutor é esse senhor que referes. Um dos meus hábitos é ler o Prefácio apenas no fim da minha leitura. Aprecio saber o menos possível acerca de um livro quando o começo a ler. O prefácio do Paulo Faria é muito apelativo. Talvez tenha encontrado um único erro... a tal excepção que confirma a regra da qualidade, espero. Como já expliquei, depois de me arruinarem o momento, tudo me parece estar errado...
Se gostar do Meridiano - confesso que já tenho medo - lerei mais livros do McCarthy. Quando gosto de autor sou-lhe fiel.
Obrigado! ;)

Nuno,
muitas vezes preferia não saber Inglês... O autor parece-me extremamente interessante, nota. Dá-me a ideia de que irei encontrar no Sr. Cormac muito prazer, ainda que doloroso... Temos de entrar no Meridiano e logo trocaremos impressões!
A sinopse deste livro dá a sensação de o livro ter um ritmo acelerado e dinâmico. Isso é um erro completo... ;)
Abraço.

Cristina,
o tradutor, como refiro na resposta à Teresa, é o Paulo Faria... Tenciono ler mais obras do Cormac McCarthy. A minha opinião ainda está em aberto. Acredito que poderei ser mais conclusivo quando tiver mais por onde pegar, comparar e degustar!
A forma como leio é inata. Para o bem e para o mal...
Obrigado!

Carla!
Muito obrigado. Irei colocar o teu nome ali ao lado da Teresa mas, perdoa-me, não farei mais nenhum post acerca do assunto... está bem? Aceitas?
Não sei muito bem o que dizer no que diz respeito à invisibilidade de escritor e tradutor, embora naturalmente, concorde convosco, Sobretudo no que diz respeito à necessidade de um bom tradutor ser também ele um escritor - pelo menos - razoável.

Cristina Torrão disse...

Pois, Paulo Faria é mesmo o tradutor habitual de McCarthy. Pelo que li na LER, arrisco dizer que seja competente. Mas estou para aqui a opinar sobre um livro que nunca li. Tu deste a tua opinião, André, e é isso que importa. Fica registada e, se algum dia eu ler o mesmo livro, aí sim, posso confrontar a minha opinião com a tua.

André Nuno disse...

Gostaria muito, Cristina. :)

tonsdeazul disse...

Do autor li "Meridiano de sangue", que apesar de ter gostado, considerei muito violento em todos os sentidos. Não foi uma leitura nada fácil, por isso ainda não consegui voltar a ler McCarthy.

André Nuno disse...

Tons de Azul,
já neste livro fiz a minha leitura sempre à espera que algo corresse tremendamente mal... Mas foi uma sensação muito interessante!
Estou ansioso por ler o Meridiano. :)

Paula disse...

Olá,
Tenho uma prendinha para ti no meu blogue ;)

Iceman disse...

Ora viva!

Este livro ainda não li, no entanto achei curioso teceres as mesmas considerações que eu teci quando li o primeiro livro de Cormac.

Para mim, Merediano de Sangue é o seu melhor livro, no entanto "A Estrada" não lhe fica muito atrás. Porém, na consideração do Mal, Meridiano é exímio e, quanto a mim, Cormac cria uma personagem fantástica que é ela própria, a imagem personificada do Mal.

André Nuno disse...

Olá, Iceman.
Tenho encontrado opiniões muito boas sobre o Meridiano, quase todas indo no sentido a que aludes e que me marcou "Nas Trevas". Estou cada vez com mais vontade de repetir esta sensação de gostar/temer a escrita do McCarthy. Os próximos livros a ler chegaram hoje, mas da encomenda seguinte constará, certamente, o "Meridiano de Sangue".
Obrigado pela tua visita. Gosto bastante de ler as tuas opiniões no teu blogue e será muito interessante trocarmos impressões acerca de livros que ambos tenhamos lido. :)

Iceman disse...

Tenho muita pena de não teres participado numa leitura conjunta que se efectuou num forum que já não existe.

Foi fantástico e, na altura, tratou-se da minha segunda leitura da obra e, tantas opiniões diferentes, fez-me ver e considerar outras perspectivas.

André Nuno disse...

Iceman,
teria sido interessante. Decerto teria gostado imenso. Quem sabe entre nós não promoveremos eventos desse num futuro próximo? :)

Iceman disse...

Olha André, é uma questão que poderiamos ponderar com seriedade.

Um dos meus "sonhos" é construir uma espécie de tertúlia presencial, onde, sei lá, uma vez por mês, nos encontravamos para discutir sobre livros. No entanto depois temos pela frente problemas logísticos e não é fácil.

Foi essa a ideia que esteve por detrás dessa leitura conjunta, e, no forum, resultou muito bem e foi extremamente interessante.

Eu já participei em algumas, inclusivamente, no passado, em algumas de forma presencial e, essas, eram deliciosas, sobretudo quando a discussão é entre polos opostos.

Abraço!

André Nuno disse...

Iceman,
temos de pensar nisso seriamente.

No caso presencial, embora mais
enriquecedor temos as questões logísticas que muitas vezes são inultrapassáveis. Existe ainda a questão que alguns, pelo menos numa fase inicial, não se sentirem à vontade para irem ao fundo da obra e de si mesmos na presença outrem. Muito provavelmente incluo-me neste grupo... Sou reservado... ;)
Todavia considero que fazer iniciativas de leitura conjunta onde partilhássemos a opinião num registo online seria maravilhoso. Depois se criar um grupo de habituais participantes, aí sim, seria interessantíssimo (e mais fácil ;) ) conhecer pessoalmente aqueles com quem trocámos impressões e sentimentos.
Um grande abraço!

Pedro disse...

Partilho a minha opinião sobre A Estrada

http://pedrices.blogs.sapo.pt/10392.html