terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Sentido do Fim, Julian Barnes - Opinião



Sinopse:


Tony Webster e a sua clique só conheceram Adrian Finn no fim do liceu. Famintos de livros e de sexo, e sem namoradas, viviam esses dias em conjunto, trocando afetações, piadas privativas, rumores, e mordacidades de todo o género. Talvez Adrian fosse mais sério do que os outros, e seria certamente mais inteligente. Mesmo assim juraram que ficariam amigos para o resto da vida. Tony está agora reformado. Teve uma carreira, um casamento e um divórcio amigável. E nunca fez nada para magoar ninguém - ou pelo menos acredita nisso. Mas a chegada da carta de uma advogada desencadeia uma série de surpresas e acontecimentos inesperados que lhe vão mostrar que a memória é afinal uma coisa altamente imperfeita O Sentido do Fim, o mais recente romance de Julian Barnes e livro recém-galardoado com o Man Booker Prize 2011 - é a história de um homem que se confronta com o seu passado mutável. Com marcas da literatura inglesa clássica - na apreciação do júri que o distinguiu - O Sentido do Fim constrói, com grande delicadeza e precisão, uma trama tensa, forte, e revela a mestria de um dos maiores escritores dos nossos tempos.



Opinião:

O Sentido do Fim de Julian Barnes, vencedor do prémio Man Booker Prize 2011, é uma história que nos é narrada de forma intimista por Tony Webster.

O livro, dividido entre as recordações da adolescência de Tony e as deste nos olhos de adulto aposentado, versa sobre a vida na perspectiva da memória, a transformação que esta sofre ao longo da vida, de como as memórias se transformam, - e com elas a própria realidade - se torcem, enevoam, esbatem e outras vezes surgem límpidas, vivas, intensas - algumas vezes como nunca.

É um balanço da vida deste Webster que o próprio faz, partilhando connosco as reflexões e conclusões que da sua própria vivência retira, quase como se de uma conversa se tratasse. Ao longo do processo conhecemos os seus três amigos - mais Adrian do que os outros - a  escola, alguns professores, os seus pensamentos, o resto da vida, a primeira namorada, a sua ex-mulher, a sua filha, etc.

Mais do que sobre a memória este romance, para mim, versa sobre a vida na sua plenitude. Como esta se desenvolve, como nos afecta, como evoluímos, - ou não - como nos encaminhamos e aceitamos o fim. As decisões que tomamos e as suas implicações.
Ocorreu-me agora que nenhuma atitude passa sem consequências. 
Sejamos nós ou outrem os afectados, o certo é que cada decisão não é impune. 

Gostei de ler a obra. É plena de frases e ideias interessantes que me fizeram reflectir e sorrir. 
Achei inteligente que, inadvertidamente ou não, o ritmo da narrativa fosse mais rápido com o narrador adulto do que quando este recorda a sua adolescência. Essa semelhança com a vida, que quanto mais perto nos encontramos do seu fim mais depressa corre, corre, e corre fez-me sorrir, considerar que poderá ter sido um bom apontamento do autor.

Logo nas primeiras páginas comecei a pensar que nota mereceria o livro. Um valor surgiu na minha mente e guardei-o até ao fim. Ao contrário da  memória este não se alterou. :)

O mote Man Booker é: "The Man Booker Prize promotes the finest in fiction by rewarding the very best book of the year."

Parece-me demasiado voluntarioso considerar este "The Sense of an Ending" como o melhor livro de ficção que se tenha escrito em 2011.

Não me convence a tanto.
Falta-lhe algo.

Deitei-me ontem - hoje - pensando no que falta a esta obra.
Tem técnica. Tem interesse. Tem reflexão. Tem alma. 
O que faltará então?

Falta-lhe corpo.

Eros e Thanatos, amor e morte, precisam da carne que neste caso não existe. 
É uma verdade "filosoficamente evidente" ;)

14/20 valores. 

18 comentários:

Carla M. Soares disse...

Não li a obra... O que queres dizer com corpo? Fico por vezes com a ideia de que, nestes livros mais introspetivos, nem sempre as personagens e narração nos 'agarram'... será isso, torna-se frio?

Paula disse...

Gostei muito da tua opinião. Tal como tu adorei este livro, as frases, as reflexões a que nos leva, os caminhos para... no entanto falta algo para ser um booker :P foi o que eu também achei!

Offuscatio disse...

Acho que conseguiste expressar muito bem a alma deste livro, e é já uma opinião unânime que algo se perde neste romance. Na verdade não sou uma admiradora incondicional do universo cultural anglo-saxão (dizes-se assim?:P) e penso que isso pudesse ter condicionado a minha opinião global sobre o livro.

Como já tinha escrito no Facebook, recomendo-te firmemente a leitura de "A ilha de Sukkwan" de David Vann. É fácil encontrar paralelismo entre as duas, mas a segunda é muito mais aditiva.

André Nuno disse...

Carla,
queria dizer que o livro necessitaria de mais do que as 152 pág. que tem para ser grandioso. Pode-se fazer muito - e bem - em poucas páginas mas há limites e para aprofundar tudo aquilo que é aflorado e tornar este livro mais rico penso que lhe falta tamanho - corpo. Não o achei frio.
Espero que me tenha conseguido explicar... ;)

Paula,
obrigado. Desta vez senti que a minha opinião escrita é similar à sentida com a leitura da obra.
Fiquei contente com isso.
E de facto, para Booker é curto. ;)

Offuscatio,
Como também te referi no FB, essa obra, depois de ler a tua opinião, já faz parte da minha lista de compras.
Obrigado. :)

Abraços!

teresa dias disse...

Olá André Bruno,
Tenho o livro numa pilha ao meu lado, mas antes dele tenho três para ler ou reler.
Depois do teu comentário fiquei algo desiludida. Realmente nem sempre os premiados são os melhores. Coisas...

Nuno Chaves disse...

Olá André, tenho este livro incluido na minha meta de leitura para este ano de 2012. Quase todas as críticas que tenho lido acerca desta obra, não são as mais abonatórias, no entanto a tua consegue ser das mais suaves que já li. Após a sua leitura, voltaremos a falar com certeza neste livro. Entretanto encontro-me com o vencedor deste prémio de 1992.
1 abraço.

André Nuno disse...

Teresa Dias,
Nuno Chaves,

O livro é bom. Eu sinceramente gostei... só que daí a dizer que é O MELHOR livro de 2011 vai uma distância tremenda. Inultrapassável. Cria um expectativa que não se concretiza. Se partirem para esta obra esperando o pior talvez a achem genial! ;)

tonsdeazul disse...

Tenho "Nada a Temer" na mesa de cabeceira, mas apesar de estar a gostar tive de deixá-lo para uma altura mais propícia...
Tenho curiosidade neste, mas só o irei ler, se gostar mesmo do meu. ;)

André Nuno disse...

Tons de Azul,
espero que gostes e partilhes a opinião. Se for positiva lerei também esse "Nada a Temer".
;)

joham disse...

Caro André, podes definir os teus conceitos de Técnica, Interesse, Reflexão e Alma?
Sabendo já que para ti Corpo é tamanho, e tamanho é grau de aprofundamento, sinto-me necessitado de saber mais sobre quem lê livros, estórias, pois sou , de momento, um escritor em princípio de lavra.
Grato pela tua atenção, te envio uma dica sobre uma obra para também ser postada ao comentário:
O NOVÍSSIMO TESTAMENTO de Mário Lúcio Sousa.
Um abraço
Dom Joham

André Nuno disse...

Dom Joham,
antes de mais devo dizer-te que pesquisei o título que sugeres e me pareceu extremamente interessante. Foi adicionado à minha lista de preferências, obrigado. Quando o ler, e tenciono fazê-lo, certamente postarei opinião.

Relativamente ao teu desejo de que eu defina os meus conceitos enquanto leitor para que te orientes enquanto escritor parece-me um caminho ardiloso e de mau destino, mormente porque sou alguém pouco paradigmático. Se sucumbisses ao pensamento - erróneo - de que represento uma classe - o leitor - estarias a moldar-te com uma forma retorcida e ambígua que não te traria qualquer êxito. Não estou certo de que isso sirva o teu melhor interesse. Como saberás a subjectividade de uma opinião é incomensurável e a da minha pessoa tende para o infinito.
Não me sinto confortável no papel de me iluminar aos olhos de outrem, sobretudo para que da avaliação aos meus critérios elabores um conceito que te guie ao encontro do que é ser um escritor, isto partindo do princípio da honestidade das tuas premissas.
O que aqui faço é partilhar sentimentos. A minha opinião baseia-se no que sinto quando leio uma obra. Não tenho por objectivo julgar quem escreve, embora possa ter a minha opinião sobre cada autor.
Não sirvo de bitola, acredita.
Respeito a tua necessidade mas não me sinto à altura de corresponder às tuas expectativas e por esse motivo nem sequer tentarei fazê-lo.
Escreve o melhor que puderes.
Se tiveres qualidade alguém a reconhecerá, estou certo.
Não me desconsideres por não embarcar no desafio.
Um abraço e volta sempre.

Pedro disse...

Olá,

Não conhecia este blog mas estou a gostar de o explorar.

E embora não concorde com a falta de "corpo" porque acho que é uma das virtudes deste livro, conseguir pôr tanto em tão pouco - o que não quer dizer que não gostasse que ele fosse maior - gostei de ler esta opinião.

Tiago M. Franco disse...

Gostei bastante deste livro. Na minha opinião tem mais qualidade do que o vencedor do anterior Booker Prize.

André Nuno disse...

Pedro,
Tiago Franco,

obrigado pelas vossas opiniões.
Voltem sempre.

Abraço.

CMachado disse...

André,
li, gostei e fiquei pensando quando terminei o que faltava.
Sobre esse mote, temos Philip Roth que trabalha mais o assunto.

Aceitei quando terminei, a simplicidade e ele não ter elaborado mais a estória. Gostei como você, das frases com ideias me fizeram refletir e sorrir.
A moral da estória, sobejamente simples, (a maioria já deve saber)
cuidado com atitudes e palavras sem pensar que acaba por nos fazer arrepender.

Abç

Abç

André Nuno disse...

CMachado,
adorei este livro. É encantador e apenas lhe coloquei alguma crítica apenas por ter sido premiado e com isso as minhas expectativas estiveram demasiado altas. Apesar de tudo aceitei com todo o gosto a sua simplicidade e a capacidade do autor de dizer tanto em poucas páginas.
Seguirei a sua sugestão.
Ainda hoje comecei a ler um livro de Phillip Roth! :)
Muito obrigado pela partilha que faz aqui neste cantinho. O objectivo é mesmo esse, o trocar de opiniões e diferentes perspectivas sobre o que lemos. Alguém disse um dia que nunca ninguém lê o mesmo livro, precisamente porque não existem dois olhares iguais.

Um abraço!

CMachado disse...

Andre,
claro com certeza concordo com você.

Inclusive quando li alguns meses atras coloquei minhas considerações no Skoob a respeito desse livrinho e já tinha lido 3 do Philip Roth, daí coloquei como um livro fraco fazendo uma comparação com os autores.
Mas, depois percebo que pode dar o recado p/ um outro leitor mas jovem, talvez por sua simplicidade digamos assim.
Espero que vc tenha entendido o que quiz dizer.

André Nuno disse...

Percebi, sim! :)
Estamos na mesma onda!