sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A Desilusão de Judas, António Ganhão - Opinião



Excerto:

“A Desilusão de Judas de António Ganhão é uma narrativa que funde esferas de naturezas diferentes e que propõe uma verosimilhança bastante assertiva. Conta a história, aparentemente pouco portuguesa, de um serial killer que age com motivações tão inesperadas quanto sigilosas.” 
do posfácio de Luís Carmelo.


Opinião:
(Contém spoilers)

"A Desilusão de Judas" é o primeiro romance do português António Ganhão.
O livro é sobre um homem, casado, pai, inserido e participante na sua comunidade católica, trabalhador na secção de contencioso do Banco Borges e Irmão (lembram-se?) que, para além de tudo isto nada extraordinário, é um assassino em série.

A história inicia-se com o pronto verter de sangue do rapaz do casaco amarelo. Pouco depois inicia-se a descoberta do personagem principal, da sua família, da sua participação e ligação à comunidade religiosa, do seu emprego e dos colegas de trabalho. Mais personagens vão entrando na história, todas são caracterizadas embora nem todas tenham um papel determinante, ou sequer interessante, para o decurso da narrativa.
Pelo caminho algumas vão caíndo.

Ao longo de toda a obra podemos encontrar momentos interessantes, com frases chave que nos fazem pensar, reflectir e até sorrir.
A escrita do António é interessante, cuidada e diversificada.
Uma das frases que me fez rir foi:
"Como todos os homens pequenos, Paulo gostava mostrar-se particularmente espirituoso e contador de histórias."

Conheço alguns homens pequenos de tamanho mas gigantes de ego...

Resumindo, trata-se de uma obra cheia de pormenores e apontamentos interessantes...

... mas com aspectos negativos que me marcaram e não posso deixar de mencionar.

Na minha opinião o ritmo da narrativa nem sempre é o mais adequado. O início dá-se a um determinado ritmo que depois se perde até à sonolência, até que arranca vertiginosamente avançando e terminando porventura rápido demais.

A caracterização das personagens é bem feita mas como algumas delas pouco ou nada interferem com o decorrer da história pareceu-me que, num livro com 178 pág. se exagera deste enriquecimento pessoal, deste atribuir de densidade que depois não se concretiza.

Existem várias pequenas narrativas paralelas que vão enchendo o livro com a intenção, presumo, de adensar a história, criar suspense enquanto se aguarda pelo momento de mais um corpo cair ou um novo facto surgir na narrativa, bem como fornecer um enquadramento histórico dos cenários que envolviam as personagens. Acontece porém que a diferença de interesse entre a trama principal e as aguarelas paralelas foi para mim demasiado profunda. Descrições e informações houve que não percebi o motivo pelo qual lá foram colocadas.

Confesso que não me convenceu a forma como o assassino, supostamente com uma motivação transcendente e de epifania, vai matando figuras de perfil tão diverso.
Entre o primeiro homicídio, quase sacrificial, passando pelo segundo, mais telúrico, até chegarmos ao terceiro que me parece meramente circunstancial, não revejo na anunciada espiritualidade do personagem principal o tal fio condutor com a devida consistência que o autor desejava e no final da obra justifica, nas últimas páginas, depois de toda a acção se ter desenvolvido, tentando servir a moral da história como sobremesa. Houve momentos em que não reconhecia o "Judas" alegre, divertido, mordaz, e brincalhão da página que estava a ler com o austero, implacável, fanático e intransigente que tinha encontrado no capítulo anterior.
Não entendi a cumplicidade, ainda que efémera, com o Mãozinhas, sem depois lhe dar um final digamos mais definitivo. 
O facto desta ligação não ter sido cortada não se enquadra, para mim, no perfil deste matador de cordeiros, tratando-se de uma ponta solta sem qualquer sentido.

Embora reveja no António Ganhão potencial para escrever um grande romance, para mim, este não merece ainda esse título.

11 valores em 20 possíveis.

Boas leituras!

11 comentários:

Paula disse...

Não conheço a obra nem o autor :(
Eu continuo em "Orlando", nas últimas páginas ;)
Abraço

André Nuno disse...

Paula,
estás a gostar como no início?
Abraço!

Daniel Santos disse...

Isto pede uma mesa redonda, umas cervejas e uns tremoços.

André Nuno disse...

Daniel,
para mim cerveja preta s.f.f.
Abraço.

Paula disse...

André Nuno,
Estou a gostar MUITO mesmo!
Uma obra excelente.
Não é uma obra de muita acção, mas de bastante reflexão sobre as épocas que aborda.
Uma obra muito rica.

antonio ganhão disse...

Bem, agradeço a frontalidade do texto, mas se a minha filha mais velha põe os olhos naquele 11... estou tramado, nunca mais a convenço a se esforçar por uma boa nota!

antonio ganhão disse...

Paula, isso é a respeito do meu livro?

André Nuno disse...

António,
confesso que me senti tentado em colocar apenas a parte positiva da minha opinião, devido à possibilidade de, como aconteceu, aqui a ler.
Depois, e penso que bem, decidi colocar tudo aquilo que o seu livro me fez sentir, bom e mau. Se eu fosse escritor iria gostar de saber a opinião sincera dos meus leitores.
O facto de ter sido minucioso na descrição do que não gostei traduz seriedade da minha parte.
Mas repetindo o que já por várias vezes referi, foi só uma opinião.
Obrigado pela visita e pela jovialidade do seu comentário.
Um abraço.

Paula disse...

André Nuno,
Não, é a resposta à tua pergunta "Estás a gostar como no início?"
:D

Nuno Chaves disse...

Gostei bastante da tua opinião e já reparei que tens uma certa afinidade com o seu autor... não sei se se conhecem, mas gostei sobretudo da sinceridade na opinião, é mesmo assim que tem de ser.
De qualquer das formas é um género de estória que me agrada particularmente Mas porquê o Borges & Irmão? Esta história tem algum fundo veridico? Irei fazer uma pesquisa sobre este livrinho e o seu autor.

André Nuno disse...

Nuno,
obrigado pelas tuas palavras. Não conheço o António pessoalmente, trocámos algumas palavras mas sempre neste registo da internet.
Procuro sempre ser o mais verdadeiro que me for possível... ;)
Não sei porquê a utilização do Borges, mas achei engraçado porque na época era o banco dos meus pais! ;)
Abraço!