domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Conspiração dos Antepassados, David Soares - Opinião


Sinopse:

Na tradição dos melhores thrillers, David Soares convida-nos a espreitar debaixo do véu e a vislumbrar a mais assustadora conspiração da História: um livro assinado por Francisco d’Ollanda, o maior artista português do Renascimento, é cobiçado por uma seita disposta a tudo para o obter. Que terrível segredo terá nas suas páginas para justificar tanto sangue? Fernando Pessoa é convidado por Aleister Crowley, o mágico inglês, a entrar numa aventura cheia de mistério e suspense para descobrir esse segredo que, afinal, talvez tenha a ver com D. Sebastião, e a verdadeira razão porque os portugueses foram derrotados em Alcácer-Quibir. Do exotismo da Tunísia às ruelas húmidas de Londres, das mandíbulas da Boca do Inferno ao coração da Quinta da Regaleira, "A Conspiração dos Antepassados" é uma viagem inesquecível. Misturando verdade, lenda e magia, David Soares apresenta-nos algo nunca visto na literatura portuguesa: um romance cuja meticulosa pesquisa vai agradar aos estudiosos de Fernando Pessoa, e cuja energia e emoção vai encantar os fãs de uma grande aventura.


Opinião:

A Conspiração dos Antepassados é uma obra ímpar. Trata-se de um romance de "realismo oculto", uma história que liga o mito Sebastianista a uma conspiração ancestral para o nascimento do Quinto Império onde o Filho da Lua governaria Portugal e o Mundo. Esta conspiração é descoberta pelo Mago Aleister Crowley e por Fernando Pessoa. Primeiro individualmente, até aos seus caminhos se cruzarem, depois numa equipa surpreendentemente funcional e coesa, vemos estas duas figuras envolvidas em diversos episódios plenos de mistério, sociedades secretas e rituais ocultos. Maçonaria, Carbonária, Cabala, Alquimia, experiências sexuais sobrenaturais. Tudo acontece enquanto Pessoa e Crowley buscam a confirmação da conspiração que envolve Reis e figuras proeminentes da História de Portugal com vista ao domínio do Mundo.

Depois de um prólogo hermético, David Soares apresenta-nos Fernando Pessoa tal como ele poderá ter sido. Um homem pensativo, melancólico, inteligente e brilhante mas atormentado e muitas vezes sofredor. Um escritor assombrado que gosta de vinho e de se masturbar...
Dei por mim a ver Pessoa no café, fazendo as palavras cruzadas, a fumar um cigarro - Bons, mas não os melhores (leiam que percebem a piada) - e a beber a sua aguardente.

Segue-se Aleister Crowley - a Besta egoísta e coprofágica, entre outros atributos -, Francisco d'Ollanda, D. Sebastião, sociedades secretas, sexo, alquimia, violência, História e sangue - muito sangue.

Este livro, magnificamente escrito, exigiu de mim uma inesperada perseverança ritual, iniciática.

Com uma enorme profusão de termos ocultistas, uma caracterização brutal e crua - humana - das personagens e muitas passagens que só devem sair da obra para os olhos de quem as lê e não para qualquer outro sítio, a dada altura pensei que este romance seria rebuscado demais para as minhas capacidades e que, assoberbado, acabaria por desistir.

À medida que avançamos no enredo e mais conhecimento nos vai sendo dispensado - ao ritmo da vontade tortuosa do autor que se está marimbando para a ânsia do leitor em saber o que se passa - começamos a ficar presos nesta teia cabalística e Histórica até que não a podemos largar.
Só avançando na leitura as peças começam a encaixar-se e começamos a sentir que já compreendemos a atmosfera que nos envolve, como um qualquer iniciado numa qualquer sociedade secreta que só "subindo" na sua hierarquia verdadeiramente compreende o que o rodeia.

Foi pois com o aproximar do fim da obra que lhe reconheci toda a grandiosidade e brilhantismo.

Todas as personagens são figuras reais, históricas, que o autor procura mostrar plenas, densas e cruas.
O trabalho de pesquisa deverá ter sido uma monstruosidade hercúlea que todavia agrada de sobremaneira quem este romance lê.

Um tema surpreendente em que David Soares manifesta mestria nos conteúdos e por isso sabe conduzir o leitor - ainda que apenas o preseverante - a bom porto, deixando-o alucinado com a viagem.

Estou com a sensação que não consegui passar para palavras um décimo do que penso sobre este livro contudo não sou capaz de aprofundar mais...

Não concordo com a sinopse ao classificar o romance como um thriller.

A minha classificação para este livro é 16/20.





6 comentários:

tonsdeazul disse...

Tenho muita curiosidade nesta obra de David Soares. O autor é genial na arte de contar histórias. Conheci-o em "Os ossos do arco-íris" , depois li "Batalha" e mais tarde "O Evangelho do Enforcado". E o autor sempre a somar pontos no fantástico!
Este fim de semana por acaso li um livro dele, que já fazia algum tempo que o procurava nas livrarias, "É de noite que faço as perguntas".
Agora espero não demorar muito tempo a pegar nesta "Conspiração dos Antepassados". ;)

André Nuno disse...

Tons de Azul,
penso que irás gostar.
Fiquei muito interessado neste autor e o próximo livro que tenciono ler de David Soares é "Batalha". Imagino que tenha uma temática diferente desta "Conspiração" ao passo que "O Evangelho do Enforcado" deverá ser mais na mesma linha.
O que te parece?

Offuscatio disse...

Nunca li nada de David Soares, mas gostei muito de ler o que contas aqui. Parece que Fernando Pessoa ultimamente está na mira dos principais escritores portugueses: José Saramago, Valter Hugo Mae e agora este. Eu descobri recentemente "O ano da morte de Ricardo Reis" e acho que posso dizer que será sempre um dos livros da minha vida. Depois veio "O filho de mil homens", e não poderia acreditar na historia que emergia naquelas páginas: um desafio à própria imaginação. Estou sinceramente contente com estas últimas leituras, e pode ser que agora prove algo de David Soares :)

Paula disse...

Humm, parece interessante :)
Mais um para a lista!

André Nuno disse...

Offuscatio,
Paula,

É um livro muito interessante.
Para mim quanto mais avançava mais compensador sentia continuar a ler mas não é, sobretudo no início, a mais fácil das leituras.

A Ano da Morte de Ricardo Reis é um dos meus preferidos de Saramago... muito bom. :)

Hoje iniciarei a leitura de "O Sentido do Fim" do Julian Barnes, que vocês já leram.
Não tardará, por isso, a opinião e troca de ideias! ;)
Abraços!

tonsdeazul disse...

André afinal ainda não li "Batalha", como tinha referido. Daí que nada posso comentar... Agora "O Evangelho do Enforcado" é meio fantástico e meio histórico e fala sobre a enigmática obra dos Painéis de São Vicente. Gostei imenso!