sábado, 22 de setembro de 2012

Tempo




"Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!"

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem'
Coimbra Editora, Lda.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Servidão Humana, Somerset Maugahm - Opinião



Sinopse:

Servidão Humana é um dos romances mais emblemáticos do século XX e a obra-prima de Somerset Maugham. Esta narrativa clássica de entrada na idade adulta conta a história de Philip Carey, alter ego do autor na sua juventude, dividido entre o fervor religioso da família e o desejo de liberdade que os livros e os estudos lhe dão a conhecer. Na sua ânsia por independência e aventura, Philip sai de casa em busca de uma carreira como artista em Paris. Mas os seus planos vão ser postos em causa quando se apaixona perdidamente pela mulher que mudará a sua vida para sempre.  


Relato inigualável sobre o poder do desejo e da sede de liberdade do homem moderno, Servidão Humana coloca-nos friamente perante a nossa própria visão da vida, as nossas dúvidas e o poder transformador das decisões.




Opinião:


Servidão Humana é, para mim, um romance sobre o ser humano, aquele que pensa a sua existência. Debruça-se pela viagem diária, o mais das vezes tortuosa, do indivíduo que procura um modelo pelo qual reger o seu comportamento e justificar tanto a sua conduta geral como as suas acções particulares.

Philip Carey, é um jovem que nasce com uma deficiência física e logo fica órfão. Criado pelo o seu tio e padrinho, vigário de Blackstable, irá iniciar uma longa e dolorosa peregrinação que nos levará consigo ao longo do seu desenvolvimento físico e emocional. A sua deformidade em muito lhe irá dificultar a vida. Servirá de molde "deformador" de carácter, mas devido a ela irá adquirir o poder da introspecção através da qual desenvolverá a sua intensa apreciação da beleza, a sua paixão pela arte e pela literatura, e o seu interesse pelo espectáculo da vida.
O ridículo e o desprezo de que foi vítima levam-no a fechar-se sobre si mesmo mas, nas palavras do próprio autor, fazendo desabrochar aquelas flores que jamais perdem a fragrância.

A normalidade é a coisa mais rara do mundo, todavia para chegar a esta magnífica conclusão este jovem vê goradas as elevadas expectativas com que inicia o seu crescimento, sofre com as limitações que o seu corpo lhe impõe, com o desamparo e falta de afecto com que que tem de crescer.

Terminei ontem a leitura da obra-prima deste aclamado escritor. Antes de iniciar a jornada obtive as melhores opiniões sobre este romance, pelo que as expectativas eram elevadas. 
Devo dizer que gostei bastante da escrita, da história, da capacidade para descrever o ser humano que o autor demonstra e até dos nervos que o personagem principal, Philip, me fazia sentir com o seu comportamento tão inocente. Um herói rico e denso que certamente possui alguma faceta com a qual qualquer leitor logo de identifica.
Em várias páginas, sobretudo no final, encontrei um "quê" de Queiroz que muito me agradou.

Um livro excelente e um autor a voltar.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Sunrise



Olá a todos.
Após quase seis meses de "coma cerebral auto-infligido" através do qual recuperei uma sanidade mental que me sentia estar a fugir, eis que me encontro de volta.

A todos os que em vão persistiram nas visitas ao blogue as minhas desculpas e o meu agradecimento.

Por estes dias voltei às habituais leituras. Continuo a saborear o paciente "Servidão Humana" e estou a gostar bastante. No final podem contar com a minha, como sempre, muito modesta e muito pessoal apreciação.

Depois do falecimento do meu avô, em Fevereiro, passei por uma fase profissional muito desgastante. Senti-me sem energias que não para as essenciais obrigações de existência.
Mantenho o emprego e este continua a ser um amargo excremento com o qual me unto com o meretrício propósito de ganhar o dinheiro indispensável à subsistência familiar.
Adquiri, todavia, capacidade de lidar com isso como "gente crescida".

Não posso garantir a mesma periodicidade de publicações que até este interlúdio vos habituei. Um dos aspectos que me fez necessitar de uma pausa também da leitura foi o cansaço da obrigação que sentia em devorar livros rapidamente para poder partilhar e discutir convosco a minha opinião. Foi um erro que me separou do prazer e até da imperiosa necessidade de ler que toda a vida senti.
Sempre li para viver mas estava a viver para ler e comentar.
Não voltarei a ler com sofreguidão descabida mas apenas com aquela que o ritmo e tempo próprios do livro me induzirem.

Prometo actualizar o blogue com regularidade e, se me concederem o direito de pedir o que quer que seja, gostaria de continuar a contar com as vossas opiniões, comentários, críticas.

Até já.

quinta-feira, 15 de março de 2012

O Quinto Dia, Frank Schätzing - Opinião


Sinopse:


Acontecimentos bizarros, nas profundezas do oceano, perturbam os cientistas. No litoral do Peru, um pescador é atacado por um cardume.
Na costa do Canadá, baleias atacam embarcações turísticas. Furacões e tsunamis matam todos à sua passagem.
É o contra-ataque de um sistema que foi equilibrado antes de ser dilapidado pela intervenção humana. Ou seja: a teoria de que a actividade humana criou situações que afectam um equilíbrio delicado, que até agora abrigou formas de vida e ecossistemas complexos.
O mar é o instrumento de vingança.
O Quinto Dia revela a insurreição da natureza contra o homem, num cenário global.
Com o mundo à beira do abismo, uma verdade terrível é descoberta.
O mais assustador é que essa verdade que Schätzing aqui descreve é, não apenas possível, mas bastante provável.


Opinião:

O Quinto Dia do alemão Frank Schätzing é uma obra impressionante. Grande em mais do que um sentido.
Estas 912 páginas, estas 1541g de livro traduziram-se - para além de uma tendinite - numa agradável surpresa. Estamos perante um romance que pode ter uma leitura superficial - comercial - para a qual está bem apetrechado. Tem humor, bastante acção, - o seu QB de tiros e pancadaria - romance, bons e vilões, ameaças globais, catástrofes naturais, etc.
Por outro lado O Quinto Dia revelou-se uma obra que pode ser lida com outros olhos e também nesse campo apresenta argumentos com substância suficiente para promover a reflexão, a dúvida, a indagação.
Terminei o livro com a sensação de que se vale mais enquanto obra comparativamente com a ideia que dele fiz no início da sua leitura.

Este romance vai muito para além das alterações climáticas e de catástrofes naturais, sejam elas provocadas  pela acção humana de forma directa ou não. Reflecte-se o nosso papel no planeta e a consciência que temos do nosso lugar, do nosso real valor enquanto espécie no mundo que habitamos.

Através da presunção, vaidade e imbecilidade dos Norte Americanos, por exemplo, aborda-se a questão de todas as culturas que se consideram "eleitos" e por esse motivo se sentem plenamente justificados em fazer tudo o que lhes parece ser conveniente. Aos olhos dessa convicção tudo o resto se torna insignificante, até a vida do Homem.

O nosso egocentrismo. Individual e colectivo.


O Quinto Dia tropeça nas reacções humanas ao desconhecido. As possíveis respostas da cultura ocidental - e cristã - face à constatação de que no mundo que supostamente lhes é pertença por divino direito se descobre uma forma de inteligência ancestral e infinitamente superior, com uma organização evolutiva ímpar que relega a raça eleita à sua humilde condição de mamífero recém-chegado a um planeta - com tudo - que o precede.


A páginas tantas - muitas - faz-se quase um ensaio sobre a resposta das religiões - principalmente das três "gladiadoras" monoteístas à existência dessa inteligência ancestral e superior.
Quais as implicações na sua doutrina?
Quais respostas seriam dadas?


Na obra de Shätzing pondera-se sobre a capacidade de uma inteligência superior entender com algum grau de profundidade uma outra que lhe seja infimamente menor - e vice-versa.
Indaga-se pela definição de inteligência e chega-se à extraordinária dificuldade de a definir correctamente.

Tudo isto num romance que, ao contrário do que advoga a sinopse, toca muito mais do que apenas "o fim do mundo".

Leiam. Não vos disse se o mundo acabou ou não.
Recomendo, apesar do braço que segura o livro ficar inutilizado durante alguns dias devido ao esforço...

Decidi que não mais darei pontuações aos livros que leio.
A partir de certa altura - esta - começa a ser difícil estabelecer considerações quantitativas. Consigo, todavia, ter a noção de ter gostado de uma obra um pouco mais ou um pouco menos do que outra. Nesse sentido, a lista de livros lidos encontra-se pela ordem de preferência - do que mais gostei (no topo), para o que menos me cativou (no fundo). Assim permanecerá.

Boas leituras.

P.S. Afinal decidi entregar-me de seguida ao Maugham... ;)
Obrigado pelos argumentos.

segunda-feira, 12 de março de 2012

WOOK trouxe o correio...


Chegaram mais quatro livros para a minha ainda modesta biblioteca.
Não fui capaz de definir a ordem pela qual efectuarei a leitura...

Querem ajudar-me com a vossa opinião?

O auxílio seria muito bem-vindo... :)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Prémio Dardos




A Paula, do blogue ...viajar pela leitura...  e o Nuno do blogue Página a Página tiveram a gentileza de me oferecer um selo com o seguinte significado:

"O Prémio Dardos reconhece os valores que cada blogueiro mostra em cada dia no seu empenho por transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais... que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palavras."

Fico extremamente honrado com a distinção feita pelos caros amigos que desde o início desta viagem sempre têm caminhado a meu lado.

Muito obrigado, Paula. Muito obrigado, Nuno.

A aceitação deste reconhecimento implica três regras:
1- Se aceitar, exibir a imagem.
2- Linkar o blog do qual recebeu o prémio.
3- Escolher 15 blogs para entregar o Prémio Dardos.

Fiquei extremamente satisfeito por ter sido lembrado. Existem MUITOS blogues com imenso valor, alguns dos quais sou leitor assíduo que mereceriam selos específicos e individualizados para cada um dos seus méritos! :)
Por uma questão de sinceridade para comigo, mas também para com quem me lê passarei este selo àqueles que me têm acompanhado mais de perto e mais assiduamente.
Mencionarei todos aqueles que possuem blogue, mas para todos os que lêem o "Pensar nos Livros", manifestando muito, pouco, ou nada, a opinião: este selo é para vós também.

Obrigado pela vossa presença.

E o prémio, sem ordem definida, vai paaaaaaara:

Paula, ...viajar pela leitura..
Nuno Chaves, Página a Página
Carla Soares, Monster Blues
Cristina Torrão, Andanças Medievais
Iceman, nlivros
Teresa Dias, rol de leituras
Tons de Azul
Marisa Amaro, Offuscatio
Leitora, Atmosfera dos Livros
Leonor, A Curva da Estrada

Até já... ;)

domingo, 4 de março de 2012

Nas Trevas Exteriores, Cormac McCarthy - Opinião



Sinopse:

Nas Trevas Exteriores é uma fábula que se desenrola algures em Appalachia. Uma mulher tem um filho do seu irmão. O rapaz abandona o bebé na floresta, dizendo-lhe que este morrera de causas naturais. Ao descobrir a mentira do irmão, ela parte sozinha em busca do seu filho. Ambos os irmãos vagueiam separadamente pelas zonas rurais e são aterrorizados por três estranhos, precipitando-se a história para uma estranha e apocalíptica resolução.


Opinião:

Dois irmãos, sem mais ninguém no mundo, têm um filho, fruto da sua relação incestuosa. No dia em que a criança nasce, num parto atribulado onde Rinthy dá à luz sem qualquer assistência para que ninguém fique a conhecer o seu segredo, Culla decide abandonar o filho de ambos na floresta para que morra. Alguém encontra o bebé e trata da criança. Rinthy acaba por descobrir que o seu filho está vivo e parte à sua procura. Culla parte também, alegadamente à procura da irmã. Da viagem obstinada e sem destino de cada um, dos seus encontros com pessoas de diferentes populações, do sofrimento e morte que Culla encontra por onde quer que passe, da busca em que a inocente Rinthy se mostra - diria mesmo absurdamente - esperançada, se faz a história desta obra.
Uma viagem sem rumo onde por vezes parece que a única coisa que importa é continuarem, cada um por sua banda, a mover-se incessantemente.

Foi uma surpresa a linguagem utilizada onde se procurou retratar o modo de viver, pensar e, claro está, de falar da antiga América. Condicionado pela opção do autor, o tradutor teve de lhe ser fiel e ao longo de todo o romance encontramos expressões como "tás", "inda", "homessa", "hades", e toda uma panóplia infindável de termos antigos utilizados no discurso. Certamente não haveria como fugir a esta circunstância, já que a mesma se tratava do objectivo, aliás elogiado por alguns, do próprio autor mas não gostei muito.

Embora se utilize vocabulário rico nem sempre houve mestria na sua diversificação e sempre que algum dos dois irmãos ia a algum lado "estugava o passo". Em toda a obra os irmãos não paravam quietos e por isso levei um banho incessante de "estugar o passo".
Logo no início um juiz pergunta a Culla se este está à procura de um trabalho firme. Ao que este responde que procura qualquer tipo de trabalho. A tradução para trabalho firme vem, muito provavelmente de steady work. Acontece que "steady work" se deveria traduzir para trabalho fixo, ou duradouro ou outro qualquer sinónimo. Os meus conhecimentos da Língua Inglesa resumem-se aos adquiridos no secundário. Não tenho qualquer prática de Técnicas de Tradução e até poderei estar errado mas depois de identificar o que poderá ser uma opção de tradução infantil, aliada aos constantes "estugar de passo" não me conseguia concentrar em nada mais do que procurar identificar quais as palavras que estariam no inglês original e se o tradutor estaria a fazer o seu trabalho...

Com tudo isto levei demasiado tempo a ler um livro que se devorava em três ferradelas.

Apesar de alguns aspectos negativos, dos quais alguns até se podem prender com questões de tradução, existem diversas vertentes onde a obra é exemplar.

No decorrer da história encontramos constantemente o Mal. Não se encontra no autor qualquer pudor em colocar os de má rês a fazer o que deles se espera: torturar física e psicologicamente, agredir, estropiar, matar. É uma escrita crua que me agradou, embora confesse que passei o livro encolhido, sempre à espera do pior, da próxima desgraça, da próxima infelicidade.


Fiquei com a sensação que McCarthy tem uma capacidade incomensurável de capturar a imagem que vê na sua mente e passá-la de forma nítida para o leitor sem filtros nem rodeios. Não sendo muito descritivo é extremamente imagético ou pictórico e não tive qualquer dificuldade em ver com os meus olhos tudo aquilo que Culla e Rinthy estavam a observar.


Termina tudo tão depressa como termina: abruptamente, sem aviso.


Nas Trevas Exteriores de Cormac McCarthy foi para mim livro estranho.
Logo à partida tinha expectativas bastante elevadas devido às críticas muito positivas ao autor que encontrei em diversos locais.


Fiquei com a sensação que talvez esta obra não faça justiça à escrita do autor. Voltarei ao autor, talvez com "Meridiano de Sangue", a sua obra prima, para completar uma opinião que se encontra ainda muito indefinida e aberta.

13 valores.

E os meus caros que já leram este senhor façam o favor de se sentar aqui ao meu lado e dizer algo mais...

:)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Sentido do Fim, Julian Barnes - Opinião



Sinopse:


Tony Webster e a sua clique só conheceram Adrian Finn no fim do liceu. Famintos de livros e de sexo, e sem namoradas, viviam esses dias em conjunto, trocando afetações, piadas privativas, rumores, e mordacidades de todo o género. Talvez Adrian fosse mais sério do que os outros, e seria certamente mais inteligente. Mesmo assim juraram que ficariam amigos para o resto da vida. Tony está agora reformado. Teve uma carreira, um casamento e um divórcio amigável. E nunca fez nada para magoar ninguém - ou pelo menos acredita nisso. Mas a chegada da carta de uma advogada desencadeia uma série de surpresas e acontecimentos inesperados que lhe vão mostrar que a memória é afinal uma coisa altamente imperfeita O Sentido do Fim, o mais recente romance de Julian Barnes e livro recém-galardoado com o Man Booker Prize 2011 - é a história de um homem que se confronta com o seu passado mutável. Com marcas da literatura inglesa clássica - na apreciação do júri que o distinguiu - O Sentido do Fim constrói, com grande delicadeza e precisão, uma trama tensa, forte, e revela a mestria de um dos maiores escritores dos nossos tempos.



Opinião:

O Sentido do Fim de Julian Barnes, vencedor do prémio Man Booker Prize 2011, é uma história que nos é narrada de forma intimista por Tony Webster.

O livro, dividido entre as recordações da adolescência de Tony e as deste nos olhos de adulto aposentado, versa sobre a vida na perspectiva da memória, a transformação que esta sofre ao longo da vida, de como as memórias se transformam, - e com elas a própria realidade - se torcem, enevoam, esbatem e outras vezes surgem límpidas, vivas, intensas - algumas vezes como nunca.

É um balanço da vida deste Webster que o próprio faz, partilhando connosco as reflexões e conclusões que da sua própria vivência retira, quase como se de uma conversa se tratasse. Ao longo do processo conhecemos os seus três amigos - mais Adrian do que os outros - a  escola, alguns professores, os seus pensamentos, o resto da vida, a primeira namorada, a sua ex-mulher, a sua filha, etc.

Mais do que sobre a memória este romance, para mim, versa sobre a vida na sua plenitude. Como esta se desenvolve, como nos afecta, como evoluímos, - ou não - como nos encaminhamos e aceitamos o fim. As decisões que tomamos e as suas implicações.
Ocorreu-me agora que nenhuma atitude passa sem consequências. 
Sejamos nós ou outrem os afectados, o certo é que cada decisão não é impune. 

Gostei de ler a obra. É plena de frases e ideias interessantes que me fizeram reflectir e sorrir. 
Achei inteligente que, inadvertidamente ou não, o ritmo da narrativa fosse mais rápido com o narrador adulto do que quando este recorda a sua adolescência. Essa semelhança com a vida, que quanto mais perto nos encontramos do seu fim mais depressa corre, corre, e corre fez-me sorrir, considerar que poderá ter sido um bom apontamento do autor.

Logo nas primeiras páginas comecei a pensar que nota mereceria o livro. Um valor surgiu na minha mente e guardei-o até ao fim. Ao contrário da  memória este não se alterou. :)

O mote Man Booker é: "The Man Booker Prize promotes the finest in fiction by rewarding the very best book of the year."

Parece-me demasiado voluntarioso considerar este "The Sense of an Ending" como o melhor livro de ficção que se tenha escrito em 2011.

Não me convence a tanto.
Falta-lhe algo.

Deitei-me ontem - hoje - pensando no que falta a esta obra.
Tem técnica. Tem interesse. Tem reflexão. Tem alma. 
O que faltará então?

Falta-lhe corpo.

Eros e Thanatos, amor e morte, precisam da carne que neste caso não existe. 
É uma verdade "filosoficamente evidente" ;)

14/20 valores. 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A Conspiração dos Antepassados, David Soares - Opinião


Sinopse:

Na tradição dos melhores thrillers, David Soares convida-nos a espreitar debaixo do véu e a vislumbrar a mais assustadora conspiração da História: um livro assinado por Francisco d’Ollanda, o maior artista português do Renascimento, é cobiçado por uma seita disposta a tudo para o obter. Que terrível segredo terá nas suas páginas para justificar tanto sangue? Fernando Pessoa é convidado por Aleister Crowley, o mágico inglês, a entrar numa aventura cheia de mistério e suspense para descobrir esse segredo que, afinal, talvez tenha a ver com D. Sebastião, e a verdadeira razão porque os portugueses foram derrotados em Alcácer-Quibir. Do exotismo da Tunísia às ruelas húmidas de Londres, das mandíbulas da Boca do Inferno ao coração da Quinta da Regaleira, "A Conspiração dos Antepassados" é uma viagem inesquecível. Misturando verdade, lenda e magia, David Soares apresenta-nos algo nunca visto na literatura portuguesa: um romance cuja meticulosa pesquisa vai agradar aos estudiosos de Fernando Pessoa, e cuja energia e emoção vai encantar os fãs de uma grande aventura.


Opinião:

A Conspiração dos Antepassados é uma obra ímpar. Trata-se de um romance de "realismo oculto", uma história que liga o mito Sebastianista a uma conspiração ancestral para o nascimento do Quinto Império onde o Filho da Lua governaria Portugal e o Mundo. Esta conspiração é descoberta pelo Mago Aleister Crowley e por Fernando Pessoa. Primeiro individualmente, até aos seus caminhos se cruzarem, depois numa equipa surpreendentemente funcional e coesa, vemos estas duas figuras envolvidas em diversos episódios plenos de mistério, sociedades secretas e rituais ocultos. Maçonaria, Carbonária, Cabala, Alquimia, experiências sexuais sobrenaturais. Tudo acontece enquanto Pessoa e Crowley buscam a confirmação da conspiração que envolve Reis e figuras proeminentes da História de Portugal com vista ao domínio do Mundo.

Depois de um prólogo hermético, David Soares apresenta-nos Fernando Pessoa tal como ele poderá ter sido. Um homem pensativo, melancólico, inteligente e brilhante mas atormentado e muitas vezes sofredor. Um escritor assombrado que gosta de vinho e de se masturbar...
Dei por mim a ver Pessoa no café, fazendo as palavras cruzadas, a fumar um cigarro - Bons, mas não os melhores (leiam que percebem a piada) - e a beber a sua aguardente.

Segue-se Aleister Crowley - a Besta egoísta e coprofágica, entre outros atributos -, Francisco d'Ollanda, D. Sebastião, sociedades secretas, sexo, alquimia, violência, História e sangue - muito sangue.

Este livro, magnificamente escrito, exigiu de mim uma inesperada perseverança ritual, iniciática.

Com uma enorme profusão de termos ocultistas, uma caracterização brutal e crua - humana - das personagens e muitas passagens que só devem sair da obra para os olhos de quem as lê e não para qualquer outro sítio, a dada altura pensei que este romance seria rebuscado demais para as minhas capacidades e que, assoberbado, acabaria por desistir.

À medida que avançamos no enredo e mais conhecimento nos vai sendo dispensado - ao ritmo da vontade tortuosa do autor que se está marimbando para a ânsia do leitor em saber o que se passa - começamos a ficar presos nesta teia cabalística e Histórica até que não a podemos largar.
Só avançando na leitura as peças começam a encaixar-se e começamos a sentir que já compreendemos a atmosfera que nos envolve, como um qualquer iniciado numa qualquer sociedade secreta que só "subindo" na sua hierarquia verdadeiramente compreende o que o rodeia.

Foi pois com o aproximar do fim da obra que lhe reconheci toda a grandiosidade e brilhantismo.

Todas as personagens são figuras reais, históricas, que o autor procura mostrar plenas, densas e cruas.
O trabalho de pesquisa deverá ter sido uma monstruosidade hercúlea que todavia agrada de sobremaneira quem este romance lê.

Um tema surpreendente em que David Soares manifesta mestria nos conteúdos e por isso sabe conduzir o leitor - ainda que apenas o preseverante - a bom porto, deixando-o alucinado com a viagem.

Estou com a sensação que não consegui passar para palavras um décimo do que penso sobre este livro contudo não sou capaz de aprofundar mais...

Não concordo com a sinopse ao classificar o romance como um thriller.

A minha classificação para este livro é 16/20.





terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Herança, Christopher Paolini - Opinião


Sinopse:


Há pouco tempo atrás, Eragon - Aniquilador de Espectros, Cavaleiro de Dragão - não era mais que um pobre rapaz fazendeiro, e o seu dragão, Safira, era apenas uma pedra azul na floresta. Agora o destino de toda uma sociedade pesa sobre os seus ombros.
Longos meses de treinos e batalhas trouxeram esperança e vitórias, bem como perdas de partir o coração. Ainda assim, a derradeira batalha aguarda-os, onde terão de confrontar Galbatorix. E, quando o fizerem, têm de ser suficientemente fortes para o derrotar. São os únicos que o podem conseguir. Não existem segundas tentativas.
O Cavaleiro e o seu Dragão chegaram até onde ninguém acreditava ser possível. Mas serão capazes de vencer o rei tirano e restaurar a justiça em Alagaësia? Se sim, a que custo?
Este é o final da Saga da Herança, muito aguardado em todo o mundo por uma legião de fãs ansiosos.


Opinião:

Herança é o último livro de uma fantástica saga que Christopher Paolini escreveu durante 12 anos. Tal como se anunciava pela evolução visível ao longo dos volumes já editados, este que acabei de ler já hoje, às 02:30h, foi o melhor escrito, o mais rico a nível de técnica, quer da narração, dos seus tempos e ritmos, quer da manutenção do suspense e do interesse do leitor.
Ao longo das 2984 pág. da saga, o autor caracteriza diversas personagens das mais variadas raças. Todas têm o seu papel, o seu objectivo e Paolini não deixa nenhuma ponta solta, unindo brilhantemente todas elas num final que havia sido anunciado ainda no primeiro volume mas imperceptível se não lêssemos os quatro livros.

A história é brilhante, rica e bem contada.

No final do livro o escritor dirige-se, como habitualmente, aos leitores e afirma que "a perspectiva de abandonar Eragon, Saphira, Arya, Nasuada, Roran e avançar para novas personagens e novas histórias... parece assustadora."
Linhas depois considera a hipótese de voltar a Alagaësia.

Gostaria muito que o fizesse.

Não sou um grande apreciador do fantástico. Comprei os dois primeiros livros quase por acaso e ficaram na estante durante anos, até que chegasse a altura, qual ovo de dragão que eclode apenas quando encontra o seu cavaleiro.
Tal como a relação entre esses seres é forte e arrebatadora assim é a paixão que nasceu por estes personagens e por esta história. Como qualquer paixão após o seu final a sensação de perda existe, forte, embora a saibamos efémera.

17/20 valores.

Boas leituras a todos.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A Opereta dos Vadios, Francisco Moita Flores - Opinião



Sinopse:

Francisco Moita Flores possui uma vasta obra literária e de ficção para teatro, televisão e cinema. Depois de dois romances históricos - A Fúria das Vinhas e Mataram o Sidónio!, apresenta, agora, uma farsa política de grande actualidade, onde o humor e a ironia conduzem o leitor na estonteante caminhada de um grupo de velhos amigos que se junta e cria um partido político para concorrer às eleições.
A acção decorre depois de Portugal ter atingido a bancarrota e os seus governantes e opositores se encontrarem em permanente desvario. É neste cenário singular que surge o PUN, um jovem partido que aborda as eleições pelo lado mais absurdo e inesperado, complicando cálculos e sondagens.
A Opereta dos Vadios apresenta sequências narrativas verdadeiramente hilariantes e confirma Francisco Moita Flores como uma das vozes literárias de referência no panorama nacional 



Opinião:

A Opereta dos Vadios do prolífico opinador Francisco Moita Flores é um livro que me surpreende pela positiva.
Quando li "A Fúria das Vinhas", do mesmo autor, não fiquei totalmente satisfeito com a obra. Existiam trechos aborrecidos que me faziam visualizar a cara do autor a dizer um conjunto de frases feitas e exacerbadamente carregadas de sentimento que, confesso, me enervavam bastante.
Tinha, pois, esse preconceito à partida quando me atirei a este romance que comprei por ter considerado interessante a sinopse.

Nesta sátira o autor conseguiu fazer diferente e fazer bem. O livro é divertido, com uma temática actual e que nos deixa a pensar que muitas das cenas que encontramos como alegorias anedóticas são na prática a pura realidade portuguesa, e por esse motivo muito triste, dos "entes" que nos últimos anos têm gravitado no mundo da política e nos têm arruinado.

A Opereta dos Vadios é uma interessante fotografia da alma dos políticos onde um grupo de amigos das mais diferentes opiniões se junta para formar um novo quadro, uma nova imagem, um novo Partido: o PUN.

A viagem pelo lodaçal de uma campanha política com todos os seus subterfúgios carregados de compadrio, corrupção e podridão é muito bem conseguida, roubando-nos muitos sorrisos e algumas gargalhadas ao longo da obra.

As personagens são icónicas e bem caracterizadas, quase todas elas fotografias animadas e hilariantes de estereótipos que navegam no nosso quotidiano.
Por vezes o autor parece tangenciar o limite do preconceito para com essas figuras e o grupo que representam mas prefiro acreditar que se tratou da ousadia imposta pela sátira que este livro quis ser.

Tudo acaba com um final semi-aberto que era um bocadinho espectável mas que se impunha.

A minha avaliação a este livro é 14/20.


E vocês, o que têm lido e quais as vossas opiniões?



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

WOOK chegou no correio? Um sorriso.


Por ordem previsível de leitura:
 - Herança, Christopher Paolini
 - Nas Trevas Exteriores, Cormac McCarthy
 - A Conspiração dos Antepassados, David Soares
 - O Quinto Dia, Frank Schätzing
 - O Sentido do Fim, Julian Barnes

Depois de um fim-de-semana de emoções extremas e muito tristes onde o meu avô se despediu da vida nos braços dos seus netos...

... eis que inadvertidamente sorrio de novo. Tenho mais cinco amigos!

Os livros são maravilhosos.



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

deus não é Grande, Christopher Hitchens - Opinião


Sinopse:

Como a religião envenena tudo.
Neste eloquente debate com os crentes, Hitchens apresenta argumentos contundentes contra a religião (e a favor de uma abordagem mais laica da vida) através de uma leitura atenta e erudita dos textos religiosos mais importantes.
Hitchens conta a história pessoal dos seus encontros perigosos com a religião e descreve a sua viagem intelectual para uma visão laica da vida, baseada na ciência e na razão, na qual o Céu é substituído pela panorâmica maravilhosa que o telescópio Hubble nos proporciona do universo, e Moisés e o arbusto em chamas dão lugar à beleza e simetria da hélice dupla. "Deus não nos fez", escreve ele. "Nós fizemos Deus." Explica que a religião é uma distorção das nossas origens, da nossa natureza e do cosmos. Prejudicamos os nossos filhos - e colocamos o nosso mundo em perigo - ao doutriná-los.


Opinião:

Christopher Hitchens procura nesta obra provar conclusivamente que a utilidade da religião pertence ao passado, que os livros que a fundaram são fábulas transparentes e mal contadas, que a religião é uma imposição fabricada pelo homem, que tem sido inimiga da ciência, da investigação e, logo, da evolução humana, que tem subsistido devido a mentiras e medos tendo no passado sido cúmplice da ignorância, da culpa, da escravatura, do genocídio, do racismo e da tirania. 
Esta obra, afirma o autor, foi escrita ao longo de toda a sua vida, propondo-se a continuar a escrevê-la.
Não poderá cumprir esse desiderato uma vez que faleceu em 15 de Dezembro de 2011.

Gostei bastante de ler este livro. Este tema interessa-me muito. Sempre fui um questionador nato de tudo o que me querem impor como verdade absoluta, dogmática sem apresentar argumentos lógicos e inteligentes ou, pelo menos, que não se desfaçam ao primeiro sopro, como um baralho de cartas empilhado toscamente.

É para mim óbvio que podemos levar uma vida recta, justa e ética sem obrigações religiosas.

Podemos encontrar os nossos exemplos, a moral, parábolas, códigos de conduta, a estética, a magia, o brilhantismo, a amizade, o amor, a pureza, nas obras que grandes pensadores e escritores nos legaram.

Podemos ter os nossos momentos de interioridade, contemplação, meditação, exaltação, paixão, podemos procurar e encontrar a liberdade e a beleza numa ida à biblioteca, num almoço com os pais, numa conversa franca entre amigos verdadeiros.

Para mim é o que significa esta obra e o que de melhor posso retirar dela.

É evidente que, como qualquer livro dedicado a um tema, um manifesto de opinião, se quiserem, tem de ser lido nessa perspectiva e não como um romance que se espera apaixonante e arrebatador.
Como qualquer longo diálogo, mesmo com um nosso conhecido, existem partes que concordamos plenamente mas também outras que nos fazem olhar para o lado e pensar noutra coisa.

Gostei de ter "falado" com o Christopher Hitchens.

Não darei nota a este livro porque não o posso comparar com nenhum outro sobre o qual aqui tenha colocado opinião.
São linhas muito diversas.

Boas leituras a todos.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Selo.


A Teresa Dias do blogue Rol de Leituras, ofereceu-me esta coisinha amorável pela qual evidentemente lhe agradeço.

Com este gesto de carinho arranjou-me um "31" porque agora tenho de o passar a outros blogues que goste mas com as limitações inerentes ao passatempo.

Assim sendo vamos lá passar à cerimónia de entrega:
E o selo do Liebster vai paaaaara:

Monster Blues
A Magia dos Livros
Tons de Azul
Floresta de Livros
Página a Página

Descrição do passatempo:

Selo Liebster Blog, significa querido, amado, favorito, em alemão.

Regras:
1. Link de volta com o blogueiro que lhe deu;
2. Cole o selinho em seu blog;
3. Escolha 5 blogs para repassá-lo, que tenham menos de 200 seguidores;
4. Deixar comentário avisando que estão recebendo o selinho.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Vasco Graça Moura e o desacordo ortográfico




«Vasco Graça Moura
Personagem polifacetada da vida cultural portuguesa, nasceu no Porto em 1942. Poeta, romancista, ensaísta, tradutor, foi secretário de Estado de dois Governos provisórios, desempenhou funções directivas na RTP, na Imprensa Nacional e na Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Em 1999, foi eleito deputado ao Parlamento Europeu. Para ele, a poesia "é uma questão de técnica e de melancolia", crescendo d' A Furiosa Paixão pelo Tangível através de uma densa rede metafórica que combina a intertextualidade, relacionada especialmente com Camões, Jorge de Sena, Dante, Shakespeare e Rilke, objectos privilegiados de estudo deste autor, e uma tendência ironicamente discursivista assente na agilidade sintáctica. É autor de três ensaios sobre Camões: Luís de Camões: Alguns Desafios (1980), Camões e a Divina Proporção (1985) e Sobre Camões, Gândavo e Outras Personagens (2000). Em 1996, a sua obra foi reunida em volume. Dos títulos deste autor, podemos salientar Concerto Campestre, os romances Quatro Últimas Canções (1987) e Meu Amor Era de Noite (2001), os livros de poesia Uma Carta no Inverno, que lhe valeu o prémio da APE, e Poemas com Pessoas (ambos de 1997). Recebeu o Prémio Pessoa em 1995 e a medalha de ouro da Comuna de Florença em 1998, ambos atribuídos à sua tradução da Divina Comédia de Dante.»


Vasco Graça Moura tomou um atitude, para mim, coerente, corajosa e louvável. Impedir a utilização deste Acordo Ortográfico poderá ser uma tarefa Dantesca mas absolutamente necessária.
Quando se escolhe alguém com o perfil de VGM não é lógico ou inteligente esperar domá-lo, ansiar que este negue tudo aquilo por que sempre batalhou.

Perante esta situação havia duas saídas:
Desautorizar VGM, o que provavelmente levaria à sua demissão.
Conferir legitimidade à sua decisão.

O Governo optou pela segunda via e já declarou, através do Sec.Estado da Cultura que o CCB só será obrigado a adoptar o novo AO ("Aborto" Ortográfico) a partir de 2014.

Espero que seja o primeiro passo para que se acabe com esta aberração de nos obrigarem a escrever numa língua artificial e ilógica.

O que pensam sobre este Acordo?
A minha opinião está clara... ;)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A Desilusão de Judas, António Ganhão - Opinião



Excerto:

“A Desilusão de Judas de António Ganhão é uma narrativa que funde esferas de naturezas diferentes e que propõe uma verosimilhança bastante assertiva. Conta a história, aparentemente pouco portuguesa, de um serial killer que age com motivações tão inesperadas quanto sigilosas.” 
do posfácio de Luís Carmelo.


Opinião:
(Contém spoilers)

"A Desilusão de Judas" é o primeiro romance do português António Ganhão.
O livro é sobre um homem, casado, pai, inserido e participante na sua comunidade católica, trabalhador na secção de contencioso do Banco Borges e Irmão (lembram-se?) que, para além de tudo isto nada extraordinário, é um assassino em série.

A história inicia-se com o pronto verter de sangue do rapaz do casaco amarelo. Pouco depois inicia-se a descoberta do personagem principal, da sua família, da sua participação e ligação à comunidade religiosa, do seu emprego e dos colegas de trabalho. Mais personagens vão entrando na história, todas são caracterizadas embora nem todas tenham um papel determinante, ou sequer interessante, para o decurso da narrativa.
Pelo caminho algumas vão caíndo.

Ao longo de toda a obra podemos encontrar momentos interessantes, com frases chave que nos fazem pensar, reflectir e até sorrir.
A escrita do António é interessante, cuidada e diversificada.
Uma das frases que me fez rir foi:
"Como todos os homens pequenos, Paulo gostava mostrar-se particularmente espirituoso e contador de histórias."

Conheço alguns homens pequenos de tamanho mas gigantes de ego...

Resumindo, trata-se de uma obra cheia de pormenores e apontamentos interessantes...

... mas com aspectos negativos que me marcaram e não posso deixar de mencionar.

Na minha opinião o ritmo da narrativa nem sempre é o mais adequado. O início dá-se a um determinado ritmo que depois se perde até à sonolência, até que arranca vertiginosamente avançando e terminando porventura rápido demais.

A caracterização das personagens é bem feita mas como algumas delas pouco ou nada interferem com o decorrer da história pareceu-me que, num livro com 178 pág. se exagera deste enriquecimento pessoal, deste atribuir de densidade que depois não se concretiza.

Existem várias pequenas narrativas paralelas que vão enchendo o livro com a intenção, presumo, de adensar a história, criar suspense enquanto se aguarda pelo momento de mais um corpo cair ou um novo facto surgir na narrativa, bem como fornecer um enquadramento histórico dos cenários que envolviam as personagens. Acontece porém que a diferença de interesse entre a trama principal e as aguarelas paralelas foi para mim demasiado profunda. Descrições e informações houve que não percebi o motivo pelo qual lá foram colocadas.

Confesso que não me convenceu a forma como o assassino, supostamente com uma motivação transcendente e de epifania, vai matando figuras de perfil tão diverso.
Entre o primeiro homicídio, quase sacrificial, passando pelo segundo, mais telúrico, até chegarmos ao terceiro que me parece meramente circunstancial, não revejo na anunciada espiritualidade do personagem principal o tal fio condutor com a devida consistência que o autor desejava e no final da obra justifica, nas últimas páginas, depois de toda a acção se ter desenvolvido, tentando servir a moral da história como sobremesa. Houve momentos em que não reconhecia o "Judas" alegre, divertido, mordaz, e brincalhão da página que estava a ler com o austero, implacável, fanático e intransigente que tinha encontrado no capítulo anterior.
Não entendi a cumplicidade, ainda que efémera, com o Mãozinhas, sem depois lhe dar um final digamos mais definitivo. 
O facto desta ligação não ter sido cortada não se enquadra, para mim, no perfil deste matador de cordeiros, tratando-se de uma ponta solta sem qualquer sentido.

Embora reveja no António Ganhão potencial para escrever um grande romance, para mim, este não merece ainda esse título.

11 valores em 20 possíveis.

Boas leituras!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Brisingr, Christopher Paolini



Sinopse:

Juramentos prestados. . . Lealdades testadas. . . Forças em colisão. 

Na sequência da batalha colossal nas Planícies Flamejantes contra os guerreiros do Império, Eragon e o seu Dragão, Saphira, escapam com dificuldade. 

No entanto, o Cavaleiro e o Dragão ainda terão de se deparar com inúmeros desafios… 

Eragon vê-se enredado numa série de promessas que poderá não conseguir cumprir. O juramento ao seu primo, Roran, no sentido de o ajudar a resgatar a sua amada Katrina das garras de Galbatorix. 

Todavia, Eragon deve lealdade a outros também. Os Varden precisam desesperadamente dos seus talentos e da sua força, tal como os Elfos e os Anões. E, logo que a inquietação assalta os rebeldes e o perigo espreita em cada esquina, Eragon terá de fazer escolhas que o levarão a atravessar o Império, viajando muito além. Escolhas que o poderão submeter a sacrifícios inimagináveis… 

Eragon é a grande esperança para libertar o reino da tirania. 

Conseguirá este rapaz, outrora um simples camponês, unir as forças rebeldes e assim derrotar o rei?



Opinião:


Brisingr é o terceiro livro da saga Herança de Christopher Paolini, autor norte-americano que escreveu a primeira obra aos quinze anos.

Enquanto os dois primeiros volumes são mais orientados no sentido do desenvolvimento da acção, em Brisingr, Paolini preocupa-se mais com adensar e desenvolver as suas personagens, fazendo o leitor sentir-se cada vez mais próximo destas. Não se trata de um livro aborrecido, longe disso. Continuamos a assistir a batalhas, magia, aventura, raiva, etc. mas ao longo das 800 pág. desta obra vamos entrando fundo no interior de Eragon e seus companheiros na preparação do que, na minha opinião, será a grande apoteose, a grande conclusão e o melhor dos livros de Paolini: A Herança.

Neste livro, para mim o melhor dos três que já li do autor, encontramos um Paolini mais maduro, com a natural influência que isso imprime na sua escrita.

Inicialmente o objectivo do autor foi escrever uma trilogia mas, como ele mesmo nos diz no final do livro, a necessidade de relatar a vida das personagens envolvidas na trama forçou o autor alargar-se, a demorar-se, a mudar de ideias, escrever mais um volume e não truncar nada do que tinha imaginado para a sua obra.
Agradeço-lhe por isso.

Não posso ser descritivo em relação a nenhuma  parte desta história porque facilmente poderia estar a divulgar informação que prejudicaria quem, mesmo conhecendo a aventura e até já tendo lido algum dos dois anteriores volumes, não leu Brisingr. O mais pequeno pormenor poderia revelar muito.

Direi então que se trata de uma história fantástica, rica e emocionante, nada fortuita, em que dragões, anões, elfos, humanos, espectros, homens-gato e muitas mais criaturas fantásticas interagem numa antiga e deliciosa conquista.

16 valores em 20.

Boas leituras para todos. ;)

domingo, 29 de janeiro de 2012

ENTRE LEITURAS



Leia, Ouça, Veja, mas sobretudo, Pense
[...]
Veja. 
Mas o que vê e ouve ou lê nada mais lhe traz senão matéria-prima de pensamento, já livre de muita impureza de minério bruto, porquanto antes do seu outros pensamentos o pensaram; mas, por o pensarem, alguma outra impureza lhe terão juntado. 
Nunca se precipite, pois, a aderir; não se deixe levar por nenhum sentimento, excepto o do amor de entender, de ver o mais possível claro dentro e fora de si; critique tudo o que receba e não deixe que nada se deposite no seu espírito senão pela peneira da crítica, pelo critério da coerência, pela concordância dos factos; acredite fundamentalmente na dúvida construtiva e daí parta para certezas que nunca deixe de ver como provisórias, excepto uma, a de que é capaz de compreender tudo o que for compreensível; ao resto porá de lado até que o seja, até que possa pôr nos pratos da sua balancinha de razão. 
A tudo pese. Pense.


Agostinho da Silva




Por enquanto ainda me encontro em Alagaësia, com Eragon e Orik esperando que Saphira chegue e nos leve de volta a Ellesméra para aprender algo mais que permita ao Cavaleiro do Dragão ficar mais forte, de forma a ser capaz de igualar a força do seu irmão derrotando Murtagh e o seu dragão Thorn. Ou será que os conseguirá salvar da sua obediência forçada ao Rei Galbatorix e, em conjunto, matar o Rei maldito e libertar Alagaesia do seu jugo de terror?
Logo veremos...

Boa semana a todos.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Os livros da nossa vida.



Saudações a todos.
Continuo a ler "Brisingr" do Paolini. Estou a adorar o livro mas devido à sua extensão ainda irei demorar um pouco a terminá-lo.

Como não quero estar tanto tempo sem ouvir novas da vossa parte gostaria muito que, se para aí estiverem virados, partilhassem comigo quais os vossos livros favoritos.
Seria extremamente interessante se explicassem o porquê da vossa escolha e dissertassem um bocadinho, mas não quero abusar. ;)

Enquanto escrevia este desafio fui-me apercebendo que não é de muito simples resposta mas o exemplo terá de partir de mim, por isso...

Quanto a escritores nacionais as minhas preferências recaem em "Os Maias" e "O Crime do Padre Amaro" (o livro, CLARO!) de Eça de Queiroz, "aparição" de Vergílio Ferreira, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" e "Intermitências da Morte" de José Saramago, "Equador" de Miguel Sousa Tavares.
Tudo o que estiver associado a qualquer um dos "nomes" de Fernando Pessoa.

Relativamente aos "outros" as possibilidades são imensas e é muito difícil enumerar mas...
"O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas, "O Meu Pé de Laranja Lima" de José Mauro de Vasconcelos, O Reino da Noite de Robert Gaillard, "A Sombra do Vento" e "Marina" do Carlos Ruiz Zafón.
Tudo o que estiver assinado por Haruki Murakami.

Poderia mencionar muitos mais no entanto, estes, não podia deixar de nomear.

Penso que o "divisor comum" às obras que referi reside no facto de todas estas terem-me, de alguma forma, surpreendido.

Apenas duas me fizeram chorar.

Adivinhem quais...

Quero a caixa de comentários cheia!!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O Amante da Minha Mãe, Urs Widmer


Sinopse:

A história dos acontecimentos europeus mais relevantes do século passado: os loucos anos vinte, o totalitarismo, a guerra e, em lugar destacado, a música contemporânea. A perturbante calma de um amor que pode finalmente ser contado à distância.


Opinião:

A sinopse e as opiniões da imprensa não fazem justiça a esta obra. Parece-me, aliás, que não leram o mesmo livro que eu.
"O Amante da Minha Mãe" relata a história da mãe do narrador e do homem por quem esta viveu apaixonada toda a vida, um maestro que nasceu do nada. Conta-nos ainda, sucintamente, para tentar enquadrar a senhora e a sua forma de ser, a história da mãe da mãe do narrador, do pai da mãe do narrador, do pai do pai da mãe do narrador e, como não podia deixar de ser, do pai do pai do pai da mãe do narrador.
O pai do pai do pai da mãe era um preto foragido que fez o amor e morreu nessa noite. O pai do pai da mãe era castanho e mau como tudo. O pai da mãe era cor de cobre claro e era mau como o pai. A mãe parecia filha do sol e era uma sofredora.

Antes que pensem que me encontro ébrio enquanto vos dirijo estas palavras gostaria de dizer que, em minha defesa e na procura pelo estabelecimento da verdade, o Urs Widmer, neste seu "maravilhoso livro" escreve precisamente do modo que acima se pode ler...

Quando dei por mim estava a ler o livro de duas em duas páginas, tão chato o achei. Cheguei ao fim perdendo metade da história mas pensando que o único real desperdício foi o tempo despendido para a metade que li.

Existem momentos de escrita interessante que não posso deixar e referir mas é uma obra que não me apaixonou.

7 valores em 20, e apenas por causa dos momentos bons.

Um longo bocejo para um curto livro.

Até já...




terça-feira, 24 de janeiro de 2012

WOOK trouxe o correio...



Não sei se vou aguentar muito tempo a ler o livro do Widmer...

Algo me está a puxar irremediável, fogosamente... Ai, estes dragões!!

Definitivamente, a paciência "é uma cena que a mim não me assiste".

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Amor à Primeira Vista, Domingos Amaral



Sinopse:

Amor à Primeira Vista compromete-nos a todos - os que lemos jornais, vemos concursos de televisão, assistimos ao jogo e à corrupção na vida política. À primeira vista, parece um thriller, onde são visíveis os traços de um Portugal contemporâneo, apreciados e comentados por personagens que vivem ao nosso lado. Uma apresentadora de televisão (que o leitor até pode identificar...) é o primeiro sinal de que estamos diante de um chamado efeito do real. Depois seguem-se jornalistas, ministros e até falsificadores e negociantes de arte.


Opinião:

Amor à Primeira vista é o primeiro romance do autor Domingos Amaral. Este livro é uma história sobre crime, corrupção, relações pessoais e profissionais, imprensa, política e, claro está, o amor.
Tropeçamos em encontros, desencontros, paixões, aventuras e... algo mais.

Este livro é um romance que se lê facilmente, com um enredo interessante e, por vezes divertido. É curioso saborear os meandros das relações entre os diversos personagens, com as virtudes e defeitos de qualquer pessoa que pertença ao nosso grupo de conhecidos.

À semelhança de obras posteriores do mesmo autor temos emoção, bom-humor, algum drama e, claro, sexo. 

Como referi, e trata-se de um pormenor importante, este é o primeiro romance do autor, motivo pelo qual não podemos estar à espera de encontrar uma obra perfeita ou sequer muito madura, todavia tão pouco é meu desejo obnubilar o valor que lhe pertence com toda a justiça. 

Enquadra-se dentro das expectativas que trazia quando iniciei a sua leitura.

O que menos gostei foi a circunstância de ter esbarrado em dois ou três erros ortográficos que uma mais cuidada revisão facilmente teria evitado.

13 valores em 20.

E vocês que têm a dizer?
Já leram o autor?
Habitualmente gostam das primeiras obras de cada escritor ou preferem evitá-las?
Gostam de ver a evolução de um escritor ou preferem passar logo para a "fase adulta"?

Até já... ;)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Marina, Carlos Ruiz Zafón


Sinopse:

«Por qualquer estranha razão, sentimo-nos mais próximos de algumas das nossas criaturas sem sabermos explicar muito bem o porquê. De entre todos os livros que publiquei desde que comecei neste estranho ofício de romancista, lá por 1992, Marina é um dos meus favoritos.» «À medida que avançava na escrita, tudo naquela história começou a ter sabor a despedida e, quando a terminei, tive a impressão de que qualquer coisa dentro de mim, qualquer coisa que ainda hoje não sei muito bem o que era, mas de que sinto falta dia a dia, ficou ali para sempre.» Carlos Ruiz Zafón «Marina disse-me uma vez que apenas recordamos o que nunca aconteceu. Passaria uma eternidade antes que compreendesse aquelas palavras. Mas mais vale começar pelo princípio, que neste caso é o fim.» «Em Maio de 1980 desapareci do mundo durante uma semana. No espaço de sete dias e sete noites, ninguém soube do meu paradeiro.» «Não sabia então que oceano do tempo mais tarde ou mais cedo nos devolve as recordações que nele enterramos. Quinze anos mais tarde, a memória daquele dia voltou até mim. Vi aquele rapaz a vaguear por entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina tornou-se de novo incandescente como uma ferida fresca. «Todos temos um segredo fechado à chave nas águas-furtadas da alma. Este é o meu.»


Opinião:

Confesso que estou a ter bastante dificuldade em articular algo que seja claro para vocês que me lêem. Terminei o livro por volta da 01:00H da noite que passou e chegar ao fim deixou-me com aquela sensação de tristeza e insaciável incompletude com que os bons livros me deixam.
Tive dificuldade em adormecer e continuo bastante aparvalhado, lamento dizê-lo. Por saber seria difícil opinar em relação ao que o livro me pareceu, pensei fazê-lo só daqui a alguns dias mas por outro lado desejo muito escrever agora, enquanto as imagens, e sobretudo os sentimentos, estão à flor da pele, apesar de me toldarem o raciocínio e entorpecerem a verbalização.

Marina é um livro de Zafón. 
É uma obra forte, muito bem escrita, intensa, dura mas suave e rica. Muito rica. Apesar de não ser muito extensa, (lá estou eu com a minha mania de que os livros deveriam ter como mínimo 600 pág.),  prende-nos desde as primeiras até às últimas palavras. Devo dizer aliás que o livro tem a extensão que pode e deve ter. Não está curto nem esticado.
Marina é a narração de Óscar acerca do que lhe aconteceu no período da sua vida onde conheceu Marina,. Uma história passada na cidade de Barcelona, memórias de tempos antigos e subterrâneos e ainda uma fantástica, terrível e ensandecedora história paralela que ele, Óscar, irá com Marina descobrir e viver relacionada com... tanta coisa.

Marina é um livro de Zafón. 
Já o escrevi, sei-o bem. Todavia poderei não ter sido claro em relação ao alcance que pretendi que tivesse a afirmação. Repito-o, então:

Marina é um livro de Zafón.
Um grande livro.
Recomendo sem reservas. Não tem qualquer parte negativa.

A minha classificação: 18 valores em 20 possíveis.

Peço desculpa mas a sensação de vácuo é proporcional ao quanto gostei da obra, logo sinto-me totalmente oco.
Não consigo ser mais eloquente do que isto. 

Boas leituras. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Russendisko, Wladimir Kaminer


Sinopse:

Prostitutas e actores, caçadoras de fortunas e locutores de rádio, engenheiros e domésticas, artistas, empresários, mafiosos, desportistas e muitos outros... Os emigrantes de Leste, legais ou não, estão espalhados um pouco por toda a Alemanha e cada um tem uma história para contar.
Este é o grande êxito da recente literatura alemã. Com mais de um milhão de cópias vendidas só na Alemanha, fez de Kaminer uma das figuras mais mediáticas do país.


Opinião:

Neste livro o autor relata um conjunto de histórias sobre personagens caricatos, alguns verdadeiros anormais, no período seguinte à queda do muro de Berlim. 
É um livro bem humorado, bem menos inocente do que uma leitura mais superficial poderá induzir.
Ficamos a saber, através da caricatura, os vícios e defeitos, os costumes de russos, alemães, turcos.. até ficamos a saber como se diz "pila" num país dos Balcãs que agora não me recordo qual. ;)
Ficamos a saber sobre a emigração russa para a Alemanha, a receptividade destes, o seu funcionamento de apoio social.
São histórias breves e divertidas escritas para serem lidas num fôlego.

Para mim este livro tem um aspecto negativo que se prende com a sua estrutura.
Não gosto muito de livros de contos. Não o sendo no verdadeiro sentido da palavra porque todas as histórias estão ligadas entre si, não deixam de ser histórias individuais muito breves.
Neste tipo de estrutura não me sinto confortável. Gosto de enredos longos, onde me possa perder na sua degustação, conhecendo e tornando-me próximo dos personagens, andar com eles durante o dia, levá-los a jantar e à noite adormecer enquanto conversamos...
Neste tipo de livros isso é manifestamente impossível. 

Deste  modo atribuiria a nota de 12 valores em 20 possíveis,
ressalvando que quanto à temática mereceria bem mais mas como está estruturado desta forma não me foi muito agradável a leitura.
Para quem goste de contos ou short stories acredito que se delicie com este livro, já que está bem escrito e bem revisto, simplesmente não é a minha onda... ;P
Deu para perceber que se trata de um escritor inteligente e interessante, motivo pelo qual fiquei com vontade de ler mais obras da sua autoria.

Agora são vocês...
Conhecem o escritor?
Podem aconselhar-me mais livros seus?
Já agora, gostam de livros compostos desta forma?

Boas leituras!!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O Último Segredo


Sinopse:

Uma paleógrafa é brutalmente assassinada na Biblioteca Vaticana quando consultava um dos mais antigos manuscritos da Bíblia, o Codex Vaticanus. A polícia italiana convoca o célebre historiador e criptanalista português, Tomás Noronha, e mostra-lhe uma estranha mensagem deixada pelo assassino ao lado do cadáver. 

A inspectora encarregada do caso é Valentina Ferro, uma beldade italiana que convence Tomás a ajuda-la no inquérito. Mas a sucessão de homicídios semelhantes noutros pontos do globo leva os dois investigadores a suspeitarem de que as vítimas estariam envolvidas em algo que as transcendia. 

Na busca da solução para os crimes, Tomás e Valentina põem-se no trilho dos enigmas da Bíblia, uma demanda que os conduzirá à Terra Santa e os colocará diante do último segredo do Novo Testamento. A verdadeira identidade de Cristo. 

Baseando-se em informações históricas genuínas, José Rodrigues dos Santos confirma-se nesta obra excepcional como o grande mestre do mistério. Mais do que um notável romance, O Último Segredo desvenda-nos a chave do mais desconcertante enigma das Escrituras.

Opinião:

O mais recente livro de José Rodrigues dos Santos baseia-se na análise histórica do Novo Testamento seguindo as peripécias do já conhecido historiador Tomás Noronha que é chamado a participar na resolução do assassinato de uma sua colega. A acção desenrola-se depois a partir daí viajando pela Europa e acabando num outro ponto do globo que agora não interessa nada... Não revelo mais para não retirar a piada a quem quiser ler.

O tema da obra é interessante. Desmistifica uma data de aspectos do Novo Testamento à luz da História e da lógica, muitas vezes obliterando a Sagrada Escritura. Quem for mais sensível de fé e nunca a tiver questionado ou pensado por si, poderá ficar atónito com algumas passagens do livro, embora acredite que o autor não procura ser ofensivo para com a crença dos leitores, aliás isso mesmo reitera no final, primeiro pela boca do personagem e depois de viva voz. 
O seu objectivo confesso é proporcionar uma visão alternativa sustentada em conhecimentos palpáveis.
Já conhecia muito do que li através de outros textos, sempre me interessei por este assunto, de modo que não fiquei surpreendido.
Aconselho, todavia, que se encare este livro com a mente aberta. Não se lhe dê toda a credibilidade mas tão pouco se lha retire.
O caminho do meio acaba por ser sempre o mais virtuoso.

No enredo em si é que se encontra, para mim, o problema deste livro.
As aventuras de Tomás Noronha são normalmente uma história extremamente empolgante, carregada de mistério e suspense em que temos o bónus de ir descobrindo coisas fantásticas de temas acerca dos quais pouco sabemos.São páginas que voam, linhas que se saltam à frente porque queremos saber o que acontece!
Nesta obra o suspense é fraquinho e, lamento dizê-lo, por vezes demasiado previsível.

A opinião que em mim prevalece, correndo o risco de estar absolutamente equivocado, é que José Rodrigues dos Santos queria muito escrever sobre o que descobriu relativamente ao Novo Testamento. Esse seria o seu principal desiderato. O facto de contar uma história enquanto escreve sobre História acaba por tomar um papel secundário.
É precisamente aqui reside a questão. Muito cedo se inicia a "debitar" revelações bombásticas e parece que a acção se desenvolve apenas no sentido de permitir ao autor mais revelações fazer, perdendo-se assim grande parte da atenção com os personagens que, se tivesse que os catalogar diria que todos são secundários. Até o Tomás.
A aparente ânsia em falar sobre um tema penalizou a atenção a tudo o resto, resultando naquilo que até aqui expus.
Na parte final do livro, tendo o autor já mandado cá para fora tudo o que lhe merecia dizer sobre o Novo Testamento, dedica-se um pouca mais à trama.

Não posso deixar de sublinhar que toda e qualquer opinião que neste espaço apresente se trata da minha visão muito pessoal dos livros que leio.
Poderão, será até expectável que assim suceda, discordar profundamente de mim.
Cada um vê o mundo de forma diferente consoante os seus olhos.
Isso não retira mérito aos olhos, muito menos ao mundo.

A minha nota para este livro seria 13 valores em 20 possíveis.
Mereceria mais pelo interesse da investigação.
Merecia menos pela acção.

Agora digam lá de vossa justiça...
;)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O preço da Língua



Depois de fazer algumas visitas a digníssimos titulares de admiráveis blogues, sendo que alguns deles ainda por cima me honraram, e muito, com uma visita a este tão jovem e modesto espaço, tendo-se a Paula e o Nuno dado ao trabalho de me mencionar, e depois de procurar alguns títulos nas Wooks, Almedinas e afins, deparei-me com uma circunstância que não posso deixar de partilhar convosco, ainda para mais quando vocês já são tantos, o que me deixa extremamente surpreendido e com vontade de a todos dar um sentido abraço.

Há uns anitos, após algumas más experiências com a leitura de alguns livros, tomei a decisão de evitar ao máximo, dentro das minhas capacidades, evitar comprar livros traduzidos.
Foi curioso porque numa determinada altura só me saíam em sorte obras que estando traduzidas de outras línguas para o nosso português eram perfeitamente identificáveis, até para mim que tenho zero conhecimentos de técnicas de tradução, quais as palavras originais e qual a decisão do tradutor, tão à letra tinha feito ele o seu trabalho, que se tornava, para mim, impossível gostar dos livros.
E como custa admitir que não se consegue ler um livro, não é? Ainda para mais quando se criam expectativas altas e depois, nada.

Assim sendo decidi que só leria livros escritos em português ou inglês.
É evidente que depois da anunciada intenção continuei a comprar e ler os livros como até então porque estas coisas são muito bonitas ditas mas na hora de verdade eu olhava para os livros, eles retribuíam o olhar com o seu corpo atraente e já se imagina o resto... lá trazia eu outra vez o saco cheio.

Apesar do já relatado, e antes que fiquem fartinhos de me ler, estou a considerar começar a comprar livros estrangeiros em inglês em detrimento das versões traduzidas para português.
Porquê, perguntam vocês?

Por causa do preço.
Para além de os títulos serem editados primeiro, o que é normal e compreensível, são, em alguns casos, extremamente mais baratos, o que, para mim, não tem lógica nenhuma!
Percebo que eventualmente tenham de ser um pouco mais caros... mas quase o dobro?

E já agora, porque é que os títulos de jovens escritores portugueses são tão caros?
Não me parece que seja o melhor dos incentivos nem para autores nem para leitores.

Quais as vossas considerações?
Digam lá de vossa justiça.

Boas leituras, sejam em que língua forem! :)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Adolf Hitler - Mein Kampf



«Uma editora britânica quer publicar excertos do livro de Hitler, Mein Kampf, na Alemanha – excertos comentados por especialistas para ajudar a desmistificar o livro polémico.»
Sou impulsivo. A minha paixão por livros aliada a essa impulsividade faz-me, por vezes, comprar obras que embora saiba que não irei gostar (muitas vezes nem sequer lê-las) absolutamente tenho de possuir.

Isso mesmo passou-se com este livro que comprei há uns anos e me forcei a ler. A expressão adequada é mesmo "forçar-me" a ler porque quer o conteúdo quer a escrita são de difícil compreensão.
O conteúdo trata dos pensamentos e ideais de um homem que viria a ser responsável pela morte de milhões de pessoas e pela tentativa de aniquilação de um povo que ele achava maldito. Uma justificação prévia da necessidade de um massacre, ainda que de forma velada.
A escrita porque está traduzido para brasileiro. Deixem-se lá de coisas que, para mim, é melhor ler Inglês do que o "português do Brasil".

Esta editora britânica terá todo o direito de editar, sublinhar e tentar explicar o modo de pensar e agir de alguém como Hitler.

Só não poderá com isso desculpabilizá-lo ou minorar a maldade dos seus actos.

E vocês, que pensam sobre isto?

ERAGON / ELDEST


Comprei estes dois livros em 2005 ou 2006, não estou certo, nunca os tendo lido até ao final do ano passado,com a leitura de Eragon (terminei às 04:45h da madrugada de Ano Novo). Tendo no sábado terminado Eldest venho partilhar a minha opinião sobre estes dois livros, que fazem parte da mesma saga Herança.

Não sou um grande consumidor de livros do fantástico mas a forma empolgante com que Paolini relata as transformações na vida de Eragon, um jovem que descobre uma "pedra" que afinal se trata de um ovo de dragão que choca para ele, iniciando deste modo uma fantástica aventura que irá mudar toda a sua vida, da sua família, da sua aldeia e de todo o reino depressa faz com que sem esforço assimilemos toda a panóplia de nomes estranhos e mágicos de seres e lugares, nos deixemos transportar para o reino de Alagaesia, do qual passamos a ser habitante e espectador.
Foi uma leitura rápida e fácil que me deu um enorme prazer.

Se tivesse que atribuir uma nota aos dois livros daria 15 valores em 20.

Já tenho encomendado o terceiro livro da saga: Brisingr.

Boas leituras!

Prefácio

Na minha vida, chamemos-lhe interior, existem duas componentes que me definem: o humor, com particular ênfase na ironia, e os livros, sejam eles quais forem.
Já tenho um espaço onde me dedico a uma das minhas "partes", a ironia, mas não faria sentido continuar no mundo virtual privado de grande parte de mim mesmo.
Assim, nasce este espaço onde partilharei as minhas leituras, impressões, opiniões, críticas mas, mais importante do que tudo, surge o local onde espero vir a beber daqueles que comigo partilham a paixão pela leitura e pelos livros em si, onde poderemos trocar discussões, opiniões e paixões, segurando um cálice de Porto enquanto aquecemos os pés à lareira.
O céu só é o limite quando não temos a capacidade de sonhar.

Venham sonhar comigo. Quem sabe onde, juntos, iremos parar?